quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Espiritualidade no timing da vida Olimpíadas e o nosso perfil pluralista

Jaci Rocha Gonçalves
É Padre Casado, Doutor em Teologia, Filósofo, estudou
Comunicação no Vaticano e é Professor da Unisul

O Agosto das Olimpíadas escava mais uma vez o húmus em torno da árvore do sonho de uma humanidade aprendiz na arte de conviver com o diferente cultural. É mais uma aula no difícil mas necessário aprendizado de um perfil de humanidade pluralista.

Esse remelexo por uma terra mais fértil nessas relações com a diversidade cultural teve um momento forte no nascer do milênio nas Olimpíadas de Sidney na Austrália, em 2000. Contradizendo velhos costumes de discriminação aos aborígenes (povos indígenas locais), tidos por muitos como sub-humanos, a cerimônia de abertura teve a velocista de origem aborígene Cathy Freeman acendendo a chama olímpica. Foi um gesto certeiro.  Desfez séculos de preconceitos e anunciou novos tempos para o direito humano à diversidade cultural.

Aquela cena está viva na memória e vem se repetindo! Em setembro de 2001, em Durban na África do Sul, obedecemos, finalmente, o artigo 27 da DUDH de 1948 e, após 63 anos, assinamos a Declaração Universal do Direito à Diversidade Cultural. Passaram-se mais seis setembros e, em 13.09. 2007, após 30 anos de reivindicações adubamos ainda mais a árvore do sonho do pluralismo com a assinatura da Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas.

Agora no agosto de brincadeiras olímpicas de 2016 vibramos com novos fatos surpreendentes, dentre eles os paraolímpicos com shows de superação e a garota negra Rafaela Lopes Silva da comunidade (favela) do Alemão como estrela do ouro olímpico de judô. Esse ouro se parece a uma síntese que une as milenares artes da capoeira e do judô do Brasil, África e Oriente.

Outro fato-surpresa paralelo ao das Olimpíadas e silenciado pela mídia foi o 12º Fórum Social Mundial em Montreal, no Canadá. Cinco mil organizações da sociedade civil de 118 países  discutem pela primeira vez num país industrializado os problemas dos pobres e da natureza na casa dos ricos. Porque nações do G7 como o Canadá tem o Sul dentro de si nos 80% dos seus projetos de extração mineira.


Nessa vibe só falta lembrar a solidariedade da UNISUL nessa construção do sonho do pluralismo: os primeiros Jogos Mundiais Olímpicos Indígenas em 2015, em Palmas na Universidade do Tocantins cuja fundação foi sob a reitoria do prof Osvaldo Della Giustina, líder do grupo fundador da UNISUL. Em 2007, nos disse que propôs aos 16 caciques viver perto do campus, ter formação por Certificação Processual e espaço para interculturalidade através do Curso de Cultura Indígena. “Na assinatura final deixei por escrito apenas esta exigência: que os indígenas definam seus professores. Para este curso, cara pálida não entra!” (referindo-se ao protagonismo dos indígenas).


Continuando essa herança é que a UNISUL Pedra Branca junta 18 anos de ações com os indígenas e promove o 1º Congresso Internacional Revitalizando Culturas sobre Indigenismo. Acolhe presenças da Índia, África, Europa e latino-americanas no campus Pedra Branca e aldeia Itaty em 13, 14 e 15 de setembro.  Você é nosso convidad@ especial a participar e fortalecer esse perfil de espiritualidade pluralista em que se procura o diferente como fonte de Bem Viver. São etapas de um caminho longo e exigente, bem do jeito que  dizia o velho sábio: só vale o que nos custa. 


Os interessados podem inscrever seus trabalhos e saber mais sobre o evento no site oficial:


Aweté Nhanderu! (Deus nos abençoe!)

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Espiritualidade no timing da vida.

Jovens olímpicos: espiritualidade da esperança.

Jaci Rocha Gonçalves*

Car@ leitor@. Fechamos julho com jovens exemplos de espiritualidade da esperança evocada pela multimilenar chama olímpica que passou rápida em Palhoça nas mãos de pessoas exemplos de solidariedade humana e com a mãe natureza. Um exemplo dessa espiritualidade da esperança digna da tocha olímpica foi a presença consciente  de jovens indígenas organizados no OcupaFunai. Pouco ficamos sabendo pela mídia da extraordinária ação de cidadania que foi o OcupaFunai no dia 13 de julho em todo o Brasil. Repasso o resultado do face de um deles: “Bom dia amigos de lutas, passando para dizer que nosso esforço conseguiu traduzir o que se passou no país nessa quarta-feira: 83 etnias foram às ruas e ocuparam mais de 20 prédios da Funai, contra o sucateamento da fundação e o sistemático assassinato de indígenas por fazendeiros em todo o país. Além disso, várias solicitações de respeito à cultura e à demarcação imediata das reservas indígenas.”

Tive a graça de comungar esse momento-surpresa na Funai de São José/SC. 80% dos participantes eram da nova geração indígena universitária das etnias guarani e laklaño do litoral catarinense. Jovens que vi crescer desde o colo nos últimos 25 anos. Agora lideram seu povo e, sob a oração do fumo sagrado e da sábia presença dos velhos, articulam-se de forma serena, rápida e consistente, com o uso consciente da internet. Parecem seguidores do último viral do papa Francisco no vídeo Toghether (Juntos): “Queridos jovens, sei que tem algo em seus corações que os agita e os torna inquietos, porque um jovem que não é inquieto é um velho. (...) A juventude gera inquietude.”

Os amigos universitários de meus filhos, vários são alunos dos cursos da UNISUL Pedra Branca, mostraram-me outros exemplos como a conexão em que curtiam um retiro online de férias sintonizados a 100 mil jovens reunidos na semana de espiritualidade em Cachoeira Paulista. Essa espiritualidade da esperança se articula também entre jovens organizados nas comunidades de Palhoça. Como no retiro de férias dos jovens da Enseada de Brito. Com  minha esposa Janaína e as filhas pequenas, ficamos misturados a uma grande roda de jovens fazendo orações dançantes em torno de uma enorme fogueira na madrugada fria que antecedeu a digitação dessas linhas. Eram uma centena de jovens  que reuniram os pequenos grupos a que chamam de células, espalhadas no corpo de suas 17 comunidades que vão desde o Rio Cubatão até o Rio da Madre, sul de Palhoça.

Fico imaginando o que pipocam de retiros de jovens sedentos por um Bem Viver inclusivo da sociodiversidade e da biodiversidade. Há um oceano de jovens correndo contra a lei da morte, do desastroso e do sinistro. Eles seguem fazendo valer notícias de justiça, paz e alegria, inspirados em sua fé. Seguem insistentes na espiritualidade da esperança teimosa, apesar dos freqüentes  silenciamentos midiáticos quando se trata de noticiar com ênfase fatos de notória prevalência da solidariedade e participação das comunidades em seus direitos de organização.

Estão linkados no exemplo de Francisco e muitas outras presenças próximas e mundiais comprometidas com a espiritualidade da esperança. Estão de olho, sintonizados e dispostos a ativar essa energia viralizando possibilidades de vivência mais justa e  solidária, sem nada dever à alegria. Então, amig@s, vamu q vamu porque a filharada está sinalizando para a espiritualidade da esperança na maratona olímpica do difícil plantio do Bem Viver.

*Padre Casado, Doutor em Teologia, Filósofo, estudou
Comunicação no Vaticano e é Professor da Unisul

Publicado Originalmente em 03/08/2016
Jornal Cotidiano Pedra Branca.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Espiritualidade no timing da vida, 41 anos de padre: duas declarações e uma prece.

Jaci Rocha Gonçalves*

Car@ leitor@. Neste julho, agradeci no facebook  meus 41 anos de sacerdócio. Choveu recordações, nessa milagrosa praça virtual. Poderia rolar aqui muitas crônicas virtuosas a partir das declarações recebidas na fanpage. Selecionei duas para dar o tom desta meditação sobre o timing político que estamos vivenciando na reta de chegada das Olimpíadas.

A primeira é de um padre orionita, de Moçambique, na África. Foi um fiel voluntário jovem na fundação da Orionópolis Catarinense. Sua família vivia aos pés da Pedra Branca. Escreve: “E todos seremos iguais, o dia é a gente quem faz, quem planta a justiça refaz, a estrada da vida e da paz." É o refrão da música que recebi também de presente há mais de 40 anos. Um mantra que nutria nossa decisão de construir relações de justiça sem nada dever à leveza da alegria, mesmo naqueles tempos pesados da ditadura. E assustadores, como os que vivemos hoje.

Quando o conheci, falávamos que São Luís Orione, nos anos 20 do século passado, lutou pelo retorno dos negros como evangelizadores às terras de seus ancestrais  africanos. Sonho concretizado por missionárias orionitas desde 1979. Aqui na Unisul, vemos crescer ações para continuar e ampliar o apoio na formação de africanos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e de outras áreas.
Jaci com irmãos Glória e José na festa de ordenação de padre em 7.07.1971, na Orionópolis Paulista.

A segunda veio da Itália, de um jovem dos anos 80, que rediz o lema de nossos encontros em Roma: “al servizio del mondo!”.  Dizíamos que desta opção de viver por horizontes inclusivos não se excluía ninguém, nenhuma ideologia, religião ou qualquer poder: fosse político, econômico, jurídico ou estético.  Nem mesmo as invenções tecnológicas como se cantava esses versos da mesma música: “Vem, vamos interrogar algum computador/ o que fazer prá ver reinar o amor/ e como desarmar o coração e a razão/ de homens violentos que não vêem atrás/ o que a guerra fez e faz.”

A prece veio no dia seguinte do aniversário, na sala do Revitalizando Culturas. Na fala sobre a desculpa do ministro da justiça de que não daria a presidência da FUNAI a um indígena para não ofender outra etnia. Está perdendo a chance histórica de abraçar a sábia e milenar tradição destes povos de manter a organização confederada  pela língua comum e um respeito religioso pelo rodízio de governança. Atento, um sociólogo e jornalista africano de Guiné Bissau acompanhava a conversa.

Listamos nas confederações tupi-guarani, a língua Nheenkatu; na mayo-asteca, a Nahualt – falada por NS de Guadalupe - e a Andina, a Quéchua. O mesmo ocorreu entre os originários da África. Eles dizem que suas guerras intermináveis acontecem porque os europeus quebravam esse sistema religioso de rodízio que acarretava em castigo e ofensa imperdoável. O africano interrompeu a conversa pra dizer. Eu sinto que vocês estão falando como se conhecesse a história dos povos de Guiné Bissau.

Interajo há mais de 29 anos com os povos originários de Santa Catarina e o que tenho visto é que em sua organização toda autoridade emana da comunidade reunida em oração. A cada aldeia se garante autonomia de autoridade local. Daí, a prece: Para que deixemos de lado nossas imposições sobre eles, como fruto das Olimpíadas, rezemos!  

*Padre Casado, Doutor em Teologia, Filósofo, estudou
Comunicação no Vaticano e é Professor da Unisul

Publicado Originalmente em 18/07/2016
Jornal Cotidiano Pedra Branca.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Perda de identidade: A criança indígena confinada no abrigo

Na tarde da última quarta feira (06-07), o professor da Unisul e teólogo culturalista Jaci Rocha Gonçalves concedeu uma entrevista à jornalista Camila Yano, para o programa Justiça Legal, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, veiculado na TV Justiça. Com o tema “adoção de crianças indígenas”, a escolha está mais que justificada, dado todo o trabalho da Unisul e do centro de pesquisa Revitalizando Culturas, do qual Jaci é coordenador.

O assunto específico do tema foi sobre a decisão do desembargador substituto Rodolfo Tridapalli, da Câmara Cível Especial do Tribunal de Justiça que determinou que a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) tomasse as devidas providências para reaproximação e adaptação de uma criança de etnia Guarani-mbya, com membros da própria família extensa da comunidade indígena. Essa decisão revoga a situação da criança indígena que há mais de um ano encontra-se num abrigo na lista de espera para adoção por um casal Juruá (não-índio).

Sentado em um dos bancos do campus Unisul Pedra Branca, Jaci comentou sobre as dificuldades históricas crônicas na mudança de tratamento com os povos originários por parte dos poderes constituídos.

No caso do tratamento da criança, o representante do poder judiciário não havia escutado  a autoridade indígena e nem mesmo a FUNAI. Jaci valorizou a nova atitude do desembargador substituto como justa com a Constituição brasileira atual nos artigos 230 e 231 e a Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas de 2007. O professor Jaci reconheceu nessa atitude, um ato que se inscreve na política de reparação às leis eurocêntricas impostas no Brasil desde 1755 sobre as culturas ameríndias.

E, sobretudo, quando se trata de proteger as crianças numa cultura como a guarani que vê a criança como mensageira do divino para os humanos e protetora de seu povo.


Essa entrevista deve ir ao ar na TV Justiça, na última semana de agosto.
Da esquerda para direita: Rodrigo , Camila Yano e Jaci Rocha Gonçalves.


Leonardo Santos, 
estagiário de Jornalismo no Revitalizando Culturas
Coordenação: Prof Dr. Jaci Rocha Gonçalves

quinta-feira, 30 de junho de 2016

H’Aweté: União de Forças

Na tarde de 28 de junho, no auditório do bloco C do campus Pedra Branca da Unisul, autoridades guaranis e da universidade se uniram para conhecimento e partilha de carinho na “Celebração H’Aweté” (Gratidão).

No encontro, os guarani presentearam as bibliotecas da Unisul com o kit pedagógico do MIS e MASC que inclui o cd Tery Marae-y, entregues em todas as escolas públicas catarinenses.  Eles receberam livros para a Escola Itaty e o Centro de Formação Tataendy Rupá produzidos nos cursos da universidade. O Revitalizando Culturas ofertou artesanatos guarani, cartão de agradecimento e poema-lembrança da 11ª. Semana Cultural Mbya Yvyrupa Reko  compondo um kit de gratidão  para todos que colaboraram nos departamentos da Unisul.

Marcela Motta Dreschel, representante do IFSC da Pedra Branca, propôs um novo curso para ingresso dos indígenas, presentes também o Instituto Çarakura e grupos de apoio como Gilmar do Hippo Supermercados e Ricardo do Supermercados Rosa. Padre José Manuel dos Santos, Marline Rocha Gonçalves e Myriam Righetto representaram outros grupos de apoio voluntários da sociedade civil pela causa do diferente cultural.

Na oportunidade, o prof. Dr. Jaci Gonçalves fez o pré-lançamento e divulgação do 1º Congresso Internacional Revitalizando Culturas – Indigenismo, 13ª Semana Cultural Indígena, que tem como tema geral: Povos Originários: Riquezas Sustentáveis? A palavra conclusiva ficou com Kerexu Yxapyry, jovem educadora guarani e o Vice-reitor da Unisul prof. Dr. Mauri Luiz Heerdt que aprofundou o tema da gratidão como algo urgente na convivência que é ultrapassar o clichê do obrigado pela gratidão que brota do amor.

Ao fim do evento, todos unidos para o registro fotográfico

Aweté Nhanderu! (Deus nos abençoe!)


Leonardo Santos, 
estagiário de Jornalismo no Revitalizando Culturas
Coordenação: Prof Dr. Jaci Rocha Gonçalves

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Jaci Rocha Gonçalves e Kerexu Yxapyru na Record News

Entrevista com o antropólogo da Unisul Jaci Rocha Gonçalves, e com a ex-cacique Eunice Antunes (Kerexu Yxapyru), hoje orientadora pedagógica da escola indígena de ensino fundamental Itaty, na Palhoça. Tema: I Congresso Internacional Revitalizando Culturas sobre Indigenismo de 13 a 15 de setembro na Unisul Pedra Branca.