terça-feira, 25 de abril de 2017

Indígenas de Palhoça na capital do país

Leonardo Santos*

Começou na segunda feira (24) o Acampamento Terra Livre (ATL) em Brasília na Praça dos Três Poderes. Estima-se que cerca de 1,5 mil lideranças indígenas de todo território nacional passem por lá até o dia 28 de abril. O ATL 2017 está sendo promovido pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), que tem tido reuniões com auxilio tecnológico via whatsapp. O apoio também vem das organizações indígenas, indigenistas, da sociedade civil e movimentos sociais organizados.

De Santa Catarina, via ônibus, 30 lideranças indígenas guarani e kaingang partiram para Brasília no ATL. Como não poderia deixar de ocorrer, nossos colegas do Morro dos Cavalos e de Imaruí de Laguna também se fazem presentes. No facebook, publicações de fotos encontrando os colegas ilustram as “timelines” de Kerexu Yxapyry (Eunice), Wasa’I Mawe (Wesley) e Elizandro Karaí Antunes. 
Da esquerda para direita
Kerexu Yxapyry, Wasa'i Mawe e Elizandro Karaí Antunes
Estão acontecendo marchas, atos públicos, audiências com os três poderes, debates, palestras, grupos de discussão e atividades culturais. Nas pautas da mobilização, o principal assunto é a paralisação das demarcações de terras indígenas; entretanto, também serão debatidos empreendimentos que impactam de forma negativa nos territórios indígenas como desvalorização da saúde e educação indígenas diferenciadas.

Na tarde de terça feira, a polícia e os indígenas entraram em confronto. Foram usadas armas com gás de pimenta e balas de borracha para afastar os manifestantes originários, conforme testemunho de Marcos Morreira Karaí, presidente do Conselho de Caciques Guarani de Santa Catarina, à coordenação do Programa Revitalizando Culturas da Unisul.


                                                                                                                    *(Estagiário Revitalizando Culturas)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Xondaro (jovens) Guarani e a eficiência tecnológica.

Leonardo Santos

A 12ª Semana Cultural Indígena XONDARO MBARAETE REKO (XONDARO e suas resistências)  teve sucesso. Organizada pelos guarani na realização e na divulgação do evento, com auxílio mínimo do Grupo de Ensino, Pesquisa e Extensão Revitalizando Culturas da UNISUL. Cerca de 2000 pessoas  indígenas e juruá (não indígenas) participaram na aldeia Itaty no Morro dos Cavalos para conhecer ou aprimorar seus conhecimentos com o povo originário guarani.

Em 2017, a FUNAI completa 50 anos de atuação e lança no dia 19 de abril, dia do Índio, a campanha “abril indígena 2017” com o tema “Pesquise, Conheça, Combata o preconceito”, buscando o reconhecimento dos modos de vida e ponto de vista dos índigenas, sem os preconceitos e estereótipos ainda presentes por parte dos não índios.

Fotografia Guarani - Morro dos Cavalos
Página Facebook.

Se os denominados “homem branco” se desenvolveram, utilizam das tecnologias que a raça humana trabalhou e continuam sendo homem branco, por que os índios não poderiam se atualizar? Você não deve se surpreender ao encontrar os indígenas utilizando celular ou computador. Sim, eles se atualizaram e, sim, seguem sendo indígenas.

Mais uma prova de seu eficiente uso da tecnologia são os registros em vídeo de autoria indígena da 12ª Semana Cultural Indígena XONDARO MBARAETE REKO (XONDARO e suas resistências). Estão na página “Conexão Itaty” no facebook com edições invejáveis editadas e divulgadas pelos próprios guarani  durante o evento.

As fotos e vídeos completos, de autoria dos indígenas podem ser vistos na página do facebook "Conexão Itaty"


segunda-feira, 17 de abril de 2017

A FELIZ PÁSCOA DE ANA MARIA CRISTINA

Car@ leitor/a. Nossa jovem diretora da Escola Indígena Itaty do Morro dos Cavalos faleceu no domingo de Páscoa. Um carcinoma no Pâncreas, deixou-a 28 dias em sofrimento participativo daquelas dores do Cristo na Sexta-feira Santa. Recebeu a devida homenagem dos guarani no cemitério do Itacorubi. Logo depois, encontrei parentes e amigos impactados com o jeito guarani de se posicionar com a perda, vista como passagem.

Ouviram seus cantos, viram suas danças e enfeites ao redor do caixão. No pôster, palavras inspiradas de amor ilustradas com os desenhos da vida como “um caminho em busca da Terra Sem Males”, que começa aqui e se estende pela eternidade.
É versão das culturas tropicais para o conceito de ressurreição inaugurada na história pela páscoa de Jesus. Confirmei, então,  mais uma vez o que tenho aprendido em Teologia e Culturas que é o Espírito quem nos precede e permanece divinizando-nos em seu AMOR.

Rafaela Iwassaki, Marcos Morreira, Marcelo Werá, Ana Maria Cristina, Teófilo Gonçalves, Jaci Rocha Gonçalves, Danilo Garcia preparando  o Congresso na Unisul Pedra Branca. (Agosto 2016)

Você, inesquecível diretora, única prof não indígena na escola, sofreu em Cristo, agora festeje eternamente sua passagem. Por certo chegaste ao céu repetindo seu refrão diário: “oi, amada, amadinho...”. E toda ensimesmada, inculturada com seus alunos e docentes guarani, fez inveja no céu com seus enfeites cotidianos de embo-y (colares), brincos de penas coloridas colhidas no mato e repintadas, toda convertida a viver o ideal de partilhar vida abundante e generosa para todos e para tudo. Como uma páscoa permanente.

Sua mãe explicou a escolha de seu  nome  assim: ANA, de sua vó paterna, MARIA de sua vó materna, Cristina, porque era o nome que seus pais mais gostavam.
Ana, vó de Jesus, Maria, sua mãe e Cristina, do jeito de ser Cristo isaítico que Jesus escolheu, ou seja, como o servo sofredor e glorificado de Deus. Como você viveu. E nós vamos insistindo, resistindo energizados na vibe do Ressuscitado.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

12ª Semana Cultural XONDARO MBARAETE REKO - XONDARO E SUAS RESISTÊNCIAS


É assim! Na foto, João Batista Kuaray Gonçalves! Professor na Eif Itaty, do Morro dos Cavalos, graduado recentemente no Curso Intercultural do Sul da Mata Atlântica, partilha conhecimentos milenares de seu povo guarani na 12ª Semana Cultural XONDARO MBARAETE REKO - XONDARO E SUAS RESISTÊNCIAS.

Este foi o tema alternativo na crise ética mundial porque Xondaro significa guerreiro criança, jovem e adulto; guerreiras mulheres e homens que se dispõem a cuidar da vida de tod@s.
Esta missão de cuidar da vida de tod@s parece inscrita no coração de todas as culturas da terra. Cuidar da vida humana e de todas as manifestações biológicas.

Valeu a vivência da Aldeia Itaty, mais uma vez como Ambiente de Aprendizagem dos acadêmicos e professores da Unisul e vários outros centros de ensino/aprendizagem.

Aweté, Nhanderu! (Deus nos abençoe!)

Prof. Dr. Jaci Rocha Gonçalves

terça-feira, 4 de abril de 2017

12a Semana Cultural Xondaro Mbaraete Reko


Espiritualidades no timing do cotidiano

Águas de março, teimosias de abril

                                                                                                             Jaci Rocha Gonçalves*

Car@ leitor/@. É 25 de março de 2017. Sábado. Escrevo diante do mar e do morro sagrado dos guarani, em Palhoça. Ouço Tom Jobim na voz de Elis Regina e de sua filha Maria Rita: “São as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no meu coração.” As águas de março são famosas porque regam as plantações e, ao mesmo tempo,  aprontam cheias incontroláveis. São águas brabas antigas como o apelido do Rio Lavatudo, no Planalto Serrano Catarinense. Elas voltaram, as águas brabas, fechando o verão. É bem assim, às vezes, no mar de nossa natureza humana.

Anunciação do Senhor. Solenidade.
Talvez, por isso, seja oportuno aprendermos a leitura desses fenômenos com as chaves da sabedoria popular. O povo liga estrategicamente a Festa da Anunciação de 25 de março, em que Jesus é fecundado, com o Natal em 25 de dezembro, nove meses depois. Por coincidência, meus alunos da Unisul comentaram que valeu nesse março barriga verde a Festa da Anunciação inspirando o musical 2017 que une as vozes nordestinas de Alceu Valença e Elba Ramalho: “A voz do Anjo sussurrou no meu ouvido, e eu não duvido já escuto os teus sinais, que tu virias numa manhã de domingo, eu te anuncio nos sinos das catedrais! Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais.”


Assim, Anunciação é a festa do cuidado com a vida, da gravidez de Jesus no útero jovem de Myriam, Maria de Nazaré. Hoje ela é chamada de Nossa Senhora de todos os nomes e cores, em todas as falas e danças, em variados cantos e ritmos. Provavelmente porque, na gravidez de Maria, Myriam, mãe de Jesus se celebram todos os símbolos e tempos em que o feminino garante o cuidado com as vidas. E o masculino também, como José, cuidador inseparável de Myriam e Ieshuá (Jesus).

Deixar-nos tomar por esse espírito da Festa da Anunciação, espiritualidade de cuidadores da vida de todos e de tudo, significa investimento, no mínimo, em nossa saúde fontal, na saúde de nosso ser. Porque essa vibe do cuidado com a vida mexe com o mais profundo de nosso ethos, quero dizer, nosso modo-de-ser-humano. Alguns autores dizem que é o divino fluindo em nosso modo-humano-de-ser. Até não teistas concordam que a opção pelo cuidado biocrático nas relações do cotidiano é nosso modo-de-ser essencial. Eles dizem que não temos cuidado, mas que somos cuidado.

Daí , o pacote de espiritualidade popular unindo março e abril pode de um lado,  sacudir nas posturas de alienação, de deixar como está prá ver como é que fica; ou no desalento causado pela sensação de impotência de achar, por exemplo, que politicamente não temos mais conserto. De outro lado, pode aprumar nossa postura resiliente, teimosa, fortalecida pela páscoa de Jesus unida a outras memórias de lutadores teimosos de abril: de Tiradentes, a Chico Mendes, Irmã Dorothy e uma imensa fileira de mártires indígenas anônimos.


           Tiradentes                                                           Chico Mendes                                      Irmã Dorothy      
(1746-1792)                                                           (1944-1988)                                          (1931-2005)

Todos repórteres teimosos dos valores da dignidade humana e da relação filial com a mãe natureza.
Anunciadores de que é possível e necessária nossa santa teimosia na construção de comunidades livres, responsáveis, participativas e justas, sem deixar de lado o bom humor.

Na vibe do nome Maria, Miryam, que nas sabedorias das espiritualidades antigas significa “aquela que se equilibra sobre as águas, mesmo que águas sejam ondas agitadas”.  



Vamu que vamu, amig@s.


*Padre Casado, Doutor em Teologia e Culturas, Filósofo
Professor da Unisul e Coordenador do Programa Unisul/Revitalizando Culturas

segunda-feira, 27 de março de 2017

Espiritualidade no timing do cotidiano

BIOMAS E INDÍGENAS: ESPIRITUALIDADE SUJEITO-SUJEITO


Jaci Rocha Gonçalves*

Resultado de imagem para Campanha da Fraternidade 2017

Car@ Leitor/a. A lembrança dos povos originários na Campanha da Fraternidade 2017 sobre Biomas Brasileiros e Defesa da vida foi uma opção sábia e necessária. Sábia porque é mais um abraço de reparação a  quase hum milhão de indígenas brasileiros de 305 etnias e 274 idiomas em extinção. É necessária porque todos esses povos, de certa forma, são protetores dos biomas e protegidos pelos biomas. Em SC restam os  Kaingang (região oeste), Laklaño/Xokleng (Alto Vale do Itajaí) e Guarani (Litoral) e convivendo nas terras dos outros dois povos.

Tenho aprendido desde 1991,  especialmente com os guarani, eu e os alunos da Unisul e muitos outros visitantes das aldeias, a ter uma relação de sujeito-sujeito, relação filial com a Mãe Terra, com os biomas e não mais de sujeito-objeto. Relação amorosa, holística, de espiritualidade. Lembro que certa vez levei uma aluna bióloga à aldeia Ka’akupé do Maciambu de Palhoça que pretendia estudar a ornitologia guarani.

O velho xamã, após ouvi-la por longo tempo, lhe disse: aqui não é possível estudares os pássaros sem perceber a relação com todos os outros seres. A não ser que mudes de ideia, não poderás estudar conosco. Ela mudou de ideia. Hoje é doutora e trabalha com quatro povos originários amazônicos.

Duas heranças residuais  mostram qual a relação desses povos com os biomas de nosso ecossistema: a primeira são os nomes com que chamamos nossas montanhas (Cambirela), rios (maruim, maciambu), pássaros (anu), peixes (cará), animais (tatu), árvores (guarapuvu), plantas medicinais, tubérculos e frutas (aipim, tucum, gabiroba).

Outra é a herança cultural: os nomes que damos a nossos povoados – Biguaçu, Palhoça, Garopaba, Aririú, etc, a nossas comidas: mandioca, beiju, pirão, etc. É comum entre todos os povos originários essa relação de afeto filial com a natureza terrenal e sideral como parente, como família.  Mexeu com o bioma, mexeu com a Mãe Terra, a mãe do indígena. Nas oito aldeias guarani da Grande Florianópolis há uma mostra de sua  resistência surpreendente e nos últimos 25 anos de forma cada vez mais visibilizada. Parece haver uma reciprocidade de amor: o indígena cuida de sua mãe e ela, no caso nosso, a Mata Atlântica foi sua salvação.

No colo da Mata Atlântica, eles se refugiaram em três grandes perseguições: em 1580 – diáspora guarani no Vale do Maciambu. Em 1750, com a destruição dos Sete Povos das Missões – as montanhas, grutas e cavernas os receberam; 1910 com as políticas de integração – eles passam novamente a ser caçados como bugres ou se embranquecem obrigados a perder sua identidade. Também aqui, foi no interior da floresta que mantiveram sua resistência, segredos de saberes e fazeres culturais.
Foto: Henrique Almeida
Felizmente, agora, já podemos aprender com os próprios indígenas. Inteligentes e sábios, os três povos restantes de Santa Catarina tiveram as primeiras formaturas de universitários em 2015, na UFSC. Cada vez mais falam por si mesmos em Português. Na UNISUL, apoiamos suas produções de livros, CDs, DVDs em versão bilíngüe. Assim podemos aprender sua língua, ritos religiosos, sistemas de educação, medicina tradicional, arquitetura, astronomia, geografia, organizações políticas e econômicas, e sobretudo, como nos relacionar amorosamente com os biomas respeitando sua biodiversidade.

Neste março/abril, vamu q vamu espiritualizando e refazendo vidas.

*Padre Casado, Doutor em Teologia e Culturas, Filósofo
Professor da Unisul e Coordenador do Programa Unisul/Revitalizando Culturas