quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Lições do III UniDiversidade


Por Detrás da Janela:
um abraço aos povos da vuvuzela

por Jaci Rocha Gonçalves

Por Detrás da Janela poderia ser um cartão de natal e de votos de Ano realmente Novo e possível entre nós da Unisul e todos os povos. Nesta obra de arte juntam-se na mesma torcida brasileiros e angolanos, cantando o samba da vida pelos milagres da navegação virtual. Parece até fechar o ano da copa com um grande abraço aos povos da vuvuzela.

Por Detrás da Janela é um documentário em DVD com 10min21seg lançado neste Natal pelo Núcleo Unisul/Revitalizando Culturas no youtube sobre a vida universitária de Fernando Domingos Camuaso Segundo, acadêmico angolano da UNISUL, primeiro jornalista cego de Angola (África). O fio condutor  do audiovisual tece o percurso acadêmico de Camuaso desde que, num gesto de ousadia, se inscreveu no vestibular candidatando-se à Bolsa Unisul 40 Anos, em 2004.  

Decidido a enfrentar quaisquer obstáculos, sobretudo de ordem econômica de autossustentação, como esclarece Francisco um dos entrevistados do documentário, gerente administrativo da Unidade Pedra Branca. Num testemunhal emocionante Francisco lembra que o acadêmico cego soube combinar a um só tempo as posturas de  protagonista do processo e de lutador insistente em busca de apoios solidários.

A cinegrafia é de Paulo Henrique Abreu do Laboratório de TV do Curso de Comunicação Social Unisul PB e a autoria de roteiro, edição e produção é de Vitor Gnecco, colaborador Unisulense desde o ano 2000.  Gnecco, 58 anos de idade, cursa a 3ª fase de jornalismo da Unidade Pedra Branca e considera o documentário como seu primeiro trabalho com rigor acadêmico, tendo sido profissional de edição audiovisual ao longo de sua vida.

Por Detrás da Janela revela longa lista de apoio interno e externo à Unisul: Unisul Virtual - Laboratório EAD que viabilizou  a vídeo-conferência e Unisul presencial sob a liderança da Direção Unidade Pedra Branca e os setores como a GEPEX, Curso de Comunicação Social Jornalismo - Núcleo de Pesquisa Revitalizando Culturas, Laboratório de TV, Eventos e III UniDiversidade, PPA-Programa de Promoção à Acessibilidade, Pro-reitoria de Cultura e Artes/Novembro Cultural. Do lado de lá do Atlântico, o pessoal da EAD – Universidade Agostinho Neto e TV Pública de Angola. A sensação que se tem é de um mutirão à altura de um fato onde o efeito surpresa  não podia ficar estocado numa prateleira nas mais de duas horas de gravação.

Gnecco parece mesclar faro de velho editor com teoria jornalística etnográfica tão requerida no momento histórico atual. Sobretudo quando traz as imagens de outros estudantes cegos colegas de Fernando Camuaso e que tem utilizado as ferramentas de apoio  do Unisul/PPA (Programa de Promoção à Acessibilidade). O PPA informa que este ano oportunizou cidadania universitária a 200 pessoas com deficiências várias.

O ponto focal de todo o enredo é a solene defesa intercontinental que Fernando faz de  sua monografia em Jornalismo sobre o tema O sujeito cego no mercado de trabalho: implicações legais/sociais da sua inclusão e participação. Detalhes cinematográficos  na seleção de imagens/audio sincronizando velocidade manual e fluência verbal, ruídos de locomoção e contrastes claro/escuro como se se investisse do mundo da cegueira fazem da obra de Gnecco o registro dos esforços de uma época carente de novos olhares com mais sensibilidade pluralista.

O autor tenciona aperfeiçoar sua obra ao longo de seu tempo de academia. No momento, o documentário Por Detrás da Janela com todas as imperfeições pode ser símbolo  da  nova UNISUL na qual colaboradores e professores se sentem todos educadores para posturas multiculturais, pluralistas, justas e solidárias.

E, é claro que não poderia faltar no rigor acadêmico brasileiro-angolano, o que o filósofo Eboussi Boulaga afirma ser uma componente específica dos povos africanos: a inteligência do Eu danço, então, vivo! Por isso quem dá leveza à obra até o desfecho é a  dança sagrada que lá em Luanda chamam de Semba... e aqui os séculos mudaram para samba. Símbolo de Natal e Ano Novo porque é o troco da alegria e resistência às negações escravocratas de cidadania para todos, ontem como hoje.

Por Detrás de todas as Janelas, dá-lhe vuvuzela, dá-lhe vida!




2010: ano de curtir a África.
Prof. Jaci se veste com túnica africana de Cabo Verde para a bênção de 50 anos de amor dos amigos Nei e Marlene em Floripa (SC). Orientador de Fernando Camuaso, tem dissertação em Teologia e Culturas na Urbaniana em Roma sobre o Lugar Eclesial do Negro no Brasil.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Marangatu faz festa: dupla cidadania

 A cachoeira jorrando água, o milharal sagrado pendoando, cheiro de Petanguá por todo o lado da aldeia Tekoá Marangatu, ontem, sexta-feira, 17 de dezembro de 2010.

Tekoá Marangatu é uma das 14 aldeias mbyá-guarani do litoral catarinense.
No salão da aldeia todo enfeitado com um enorme telão, o velho karaí Mário, o cacique Gerônimo, muitas crianças e jovens faziam um silêncio sereno.

Eu disse: - Gostaria de oferecer uma surpresa aos meus afilhados! - O senhor fale com o cerimonial lá na sala de aula, respondeu Simone. Mais tarde eu soube que era filho do professor Luís Gonzaga dos mais conhecidos docentes lutadores pela justiça e dignidade humana da  região. Acompamho sua luta há 30 anos. Agora é formando em Letras da Unisul PB.

Eduardo, guerreiro da vida guarani, passou no vestibular de Licenciatura Indígena.
Na sala, manipulando um leptop, Eduardo, filho do meu velho amigo Augusto Karaí Tataendy, selecionava um menu de músicas dos corais guarani para a festa. Eduardo é Nhemboá (professor guarani) e está vibrando sob um cocar merecido de jovem guerreiro de sua comunidade.


São quatro ava (homens) e quatro kunhá (mulheres) que se formam. O número quatro resume bem os elementos vitais da terra, como pensa o povo guarani - os quatro ventos, as quatro luas, a direções e o ar, a terra, fogo e água. Sabedoria descrita no adjaká (cesto colorido) que dona Ana, esposa do xamã, me presenteou. O imponente cesto se estrutura em quatro pontas cujo entrelaçar termina num círculo solar. De fato, o sol (kuaray, kuarany, guarany) é a força máxima para o nascer e o manter a vida.

Guerreiros/as guarani da Tekoá Marangatu com alguns convidados
Os discursos dos professores e do prefeito de Imaruí, me comoveram por dois argumentos repisados: o quanto de preconceito enfrentaram até aqui e a decisão de continuar a luta com fôlego suficiente. Floriano falou em nome dos formandos: primeiro em guarani, olhando para seu povo; depois leu algumas frases em português, bem pausadas e humoradas. "Agradecemos as professoras porque nos ensinavam com alegria. Foi muito divertido estudar. Não foi uma coisa chata!" Ficou também um compromisso: a luta pela continuidade com a criação do ensino médio e pela chegada da internet.

Dividi minha fala em três presentes: uma coleção de postais culturais cada um feitos quando os formandos eram crianças e adolescentes há 12 anos no Morro dos Cavalos - trabalho do Unisul Revitalizando Culturas e a AIMG - Associação Indígena Mbyá-Guarani; uma bola de futebol multicor, fortalecendo a alegria comunitária e a música Indio do Uruguai para que os Djuruá (não-índios) continuassem alunos dos guarani. Lembrei que o autor, o humorista Arnaud Rodrigues, falecera este ano no Rio Araguaia.

Xamã do coral faz a reza do colar protetor para o prof. Jaci.
Mas quando reparei que o nome da turma  era Sepé Tiaraju, pedi que cantessem comigo aquela parte da canção deste herói guarani: "Mais um valente guerreiro a morrer pelo seu povo; é por isso que seu nome pro nosso povo é sagrado; São Sepé subiu pro céu, sua cruz ficou no azul, cai a noite ela rebrilha, ele  é o Cruzeiro do Sul. Sepé Tiaraju!"

Depois, andei pela aldeia, brinquei como tatu e recebi a bênção do xamã, que reparto com todos vocês!
E a luta pela dupla cidadania deste povo prossegue...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Prof. Jaci Amigo de Turma em Marangatu

Professor Dr. Jaci Rocha Gonçalves, coordenador do Programa e Núcleo de Pesquisas Revitalizando Culturas anda de coração acelerado. É convidado como amigo da turma do primeiro grupo de formandos da Escola mbyá da aldeia Marangatu de Imaruí.
Aweté, Nhanderu! Professor.

Índios Guarani querem estudar na Unisul

Indios Guarani PalhoçaÍndios Guarani querem estudar na Unisul

Danças, músicas e educação para indígenas movimentam a Pedra Branca.

Na véspera do aniversário de 46 anos da Unisul, no dia 25, onde foram encerradas as atividades do Unidiversidade, os índios Guarani fizeram apresentações de dança e canto, exposição e venda de artesanato, participaram de debates e apresentaram uma carta, no campus universitário da Grande Florianópolis – Pedra Branca, na última sexta-feira.

 Na ocasião, os índios entregaram uma carta para a universidade em que solicitam bolsas de estudo. Mais 10 anos é o nome da carta. Mais 10 anos de alinça e temos 10 alunos pedindo para entrar na universidade”, relata o professor Jaci Gonçalvez.

“É um agradecimento à Unisul por estes 10 anos que tem nos ajudado a fazer projetos e na educação. Também entregamos uma carta para ver se a gente consegue no ano que vem bolsas para os alunos que já concluíram o ensino médio”, diz o cacique Adão Karay.

Ana Regina Dutra, da Gerência de Ensino, Pesquisa e Extensão recebeu a carta dos índios. “Recebemos a carta e nos comprometemos a fazer uma leitura aprofundada e identificar as possibilidades que temos de acolher e trabalhar juntos com a comunidade indígena.

Tanto para podermos ajudá-los com o nosso conhecimento como também eles compartilharem os conhecimentos indígenas conosco”, afirma.

Fonte: Via Palhoça