sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Palhoça, Mariana e Paris: O caos é fértil?

Espiritualidades no timing da vida.
Escrito por: Jaci Rocha Gonçalves

Nesse momento em que novembro nos cobra revisão de 2015 e dezembro nos pede programação para 2016, penso no que tem a ver Palhoça com as duas tragédias do finado novembro. A tragédia de Paris, crimes hediondos do grupo de fanáticos religiosos Estado Islâmico e a tragédia dos crimes socioambientais em Mariana (MG) por suspeita de descuidos da Vale do Rio Doce S.A. e da Anglo-australiana BHP Billiton.

Em Paris, a violência humana mais poderosa, ou seja, matar ou morrer como garoto-bomba em nome de Deus, esperando o céu por recompensa. Historicamente, temos exemplos de sobra de que extremistas com razões religiosas chegam rápido ao máximo grau de violência. Para franceses cristãos, ateus e muçulmanos, fica o velho desafio do convívio respeitoso com o diferente, assumida em 10 de dezembro de 1948 na Declaração dos Direitos Humanos.

Quanto a Mariana, com sua tragédia de crime socioambiental, em parte é problema antigo. Por quatro anos trabalhei na região às margens do rio Xopotó que depois se torna Rio Doce até ligar Minas ao Atlântico pelo Espírito Santo. Gerações de comunidades são exploradas pelos donos de minas. Vivem no subsolo como nossos mineiros das minas de carvão no sul-catarinense. Condenados a doenças crônicas e a envelhecerem antes dos quarenta anos. O fruto do trabalho continua exportado para os países ricos. É de chorar ao ver aquele mingau de minério venenoso correndo a 60 km por hora como gigante líquido ecocida de rios e mares.

Mas o caótico não pode destruir nossa esperança teimosa e ancestral. No 8º UniDiversidade do Revitalizando Culturas da UNISUL na Pedra Branca e EAD em novembro 2015 insistimos sobre esse tema essencial: SOMOS CUIDADO e não apenas TEMOS CUIDADO. Ser humano que não É CUIDADOR já adoeceu no seu ser, as outras doenças pessoais e coletivas podem apenas ser conseqüências. Esperamos que em Paris, na Conferência do Clima, assinemos a Declaração dos Direitos da Natureza.


É utopia factível também aqui em Palhoça. Achei como exemplo, um recorte de jornal de 1995 sobre meu título de cidadania honorária.  Minha mãe Dona Cristina leu essa parte do meu texto de gratidão: “Não permitas, querida Palhoça, que banalizem a vida dos que nasceram em teu chão ou vieram de longe; Não permitas a morte fácil em tuas estradas; (...) Age com pulso firme na proteção dos teus rios e mangues, para que teus filhos e filhas não sofram com as enchentes.” 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A vida de reciclagem de Marinho

Escrito por: Natalia Santos de Pinho

Marinho Gonçalves tem 76 anos, nasceu e cresceu em Laguna. Já foi professor de artes, pescador, cozinheiro e estilista. Foi nessas profissões que foi aprendendo desde cedo a importância da reciclagem. Aprendeu que dava para fazer arte com o que as pessoas colocavam no lixo. Marinho apareceu na última noite do 5º Desafio Lixo Zero e foi uma surpresa que tornou o 8º UniDiversidade ainda mais especial. Sua participação ocorreu na montagem de um ambiente ao ar livre com Ecoesculturas artísticas feitas de materiais recicláveis.
Quando ainda era pescador aproveitava tudo do peixe e foi neste momento que aprendeu que tudo tinha uma utilidade, nada era lixo. Quando era criança e ia para a escola, ficava imaginando como poderia ser o futuro do Brasil se ia de pés descalços assistir o que a professora tinha a ensinar.
Chefe de cozinha, aprendeu como funciona o reaproveitamento. Recicla frutas, vegetais, fazendo chás. Com a banana, por exemplo, faz esculturas e, posteriormente, seca a casca antes de jogá-la no lixo para não apodrecer (sistema de secagem). Com folhas e caules faz sopa, tudo é aproveitado. A folha de cenoura, por exemplo, substitui o tempero. “Hoje sinto que faço pela natureza e faço tudo de graça”.
Consegue fazer também esse processo de reutilização com animais mortos. Faz a recuperação cozinhando-os, come aqueles que são comestíveis e os que não são joga no lixo, mas como os animais foram cozidos antes não irão apodrecer nem fazer mal ao meio ambiente. Com a galinha, por exemplo, reaproveita o bico, as penas e faz esculturas.

Reaproveita garrafa pet, vidro, artesanato, revista, jornal, papel machê, tronco de árvores. Bambu se transforma em gaiola ou instrumento. Como estilista, sabe reaproveitar também os retalhos. Marinho recicla tudo e, por isso, foi convidado pela Unisul a dar cursos sobre reciclagem.

Luz e anunciação. É chegado o Natal com a reciclagem

Marinho apareceu no último dia do 5º Desafio Lixo Zero como uma surpresa que tornou o 8º UniDiversidade ainda mais especial


sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Terÿ Marae-y: voz guarani nas escolas de SC

Espiritualidades no timing da vida

Escrito por: Jaci Rocha Gonçalves
 
Às 18h da quinta-feira, 19 de novembro de 2015, no 8º UniDiversidade junto à Passarela Verde da Unisul Pedra Branca, os instrumentos tradicionais do coral Kuaraí Ouá (Renascer do sol) dos guarani-mbyá da aldeia Marangatu (Terra da paz) de Imaruí (SC) vão sustentar suas músicas mântricas e as danças do CD Terÿ Marae-y (Nome sagrado). O CD compõe o kit  Diálogos Culturais a ser entregue a todas as escolas de Santa Catarina e, cuja exposição, se encontra no MIS/MASC do CIC nessa novembrada.

Gravado em 2002 sob a força da Unisul, Orionópolis Catarinense e FCC, lá se vão 13 anos desta obra de arte com autoria plena dos guarani. São 13 composições de Inácio da Silva Werá Mirim. “Após semanas na floresta da Serra do Tabuleiro, Namandu me ensinou estas músicas!”, disse-nos ele, ao entregar as composições.

Foram gravados três CDs no arco de 10 anos trazendo curiosas revelações deste povo de perfil sereno, alegre e resistente. No CD, crianças e jovens guarani partilham valores, memória de seus ancestrais e resgatam ideais que o tempo não mata: o maior deles – recuperar territórios sagrados como em Palhoça, o Morro Sagrado de seus ancestrais, conhecido como Morro dos Cavalos.

Na música, rezam, cantam e dançam na língua guarani: "Oreruvixá Xepe Tiaraju Nhandeyvy re rejejuka / Nhandeyvy re rejejuka ore katu ndera / Ky kuere rojae ó vyro porai rojae ó vyro / Pi ore torovy ndera ky kue ru / Pi ore torovy a."Nosso chefe Sepé Tiaraju / Você foi morto injustamente pela defesa da nossa terra sagrada / Nós hoje cantamos a todos sem distinção e choramos em silêncio / Sua morte seguramente não foi em vão / Depois da sua morte houve um grande silêncio por toda a terra / Nosso povo ficou  triste / Mas também muito feliz / Porque o seu sangue inocente, nosso irmão, banhou a terra / A sua coragem nos traz força e esperança neste nosso canto sagrado."

A terceira curiosidade é que, após o registro pelo ECAD na Biblioteca Nacional, com partitura e todos os requisitos, veio a notícia de que é o primeiro registro de músicas em guarani desde a proibição do uso da língua Nheenkatu há 250 anos.

Espiritualidade em cada verso, som, instrumentos, pinturas corporais e figurinos, Terÿ Marae-y, foi escolhido pelo MIS/MASC para repassar aos nossos filhos em todas as escolas catarinenses as sabedorias plurimilenares guarani com sua autoridade direta.


Palhoça, cujo  nome mistura palha + oca (casa de palha em guarani), possui ricas memórias deste povo sagrado pelos nomes de seus morros, florestas, animais e rios. É o município catarinense com mais aldeias guarani de SC. E terá lucidez suficiente para resolver com respeito e dignidade os conflitos de terra, sem deixar-se levar por grupos nacionais de ganância que incentivam o ódio e a discriminação. Rezemos com o coral Kuaray Ouá na passarela verde da Unisul Pedra Branca.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

PROGRAMAÇÃO 8º UniDiversidade


PROGRAMAÇÃO COMPLETA:


DIA 18, quarta-feira
19:30h – Evento UNISUL/EAD: 5ª Amostra Cultural – Direitos humanos e relações etno-raciais nas comunidades. Sorteio e premiação dos melhores trabalhos dos Estudos Socioculturais dos Pólos da EAD.
Local: Estúdio Multimídia – EAD – campus Pedra Branca
Exposição presencial da Amostra Cultural em todos os pólos do Brasil.
DIA 19, quinta-feira
14h Coleta de resíduos pela PRO-CREP na Passarela Verde da UNISUL/Pedra Branca.
18h - Evento: Jovens Guarani e a educação cultural em SC.
Apresentações de danças sagradas pelo Coral Kuaray Ouá da aldeia guarani de Marangatu (Imaruí-SC).
Local: Passarela Verde - Palco Hipermídia, Bloco C.
19h  Roda de Conversa: Autoridades Guarani, UNISUL e Museus MIS/MASC.
Homenagem dos Djuruá (não-índios) aos guarani: coral Kuaray Ouá e ao compositor Inácio Vherá Mirim.
Entrega do Kit Pedagógico-cultural “Diálogos MIS-MASC” para as escolas indígenas e bibliotecas UNISUL com inclusão do CD Tery Marae-y (Nome sagrado).
Entrega de cestas básicas às aldeias guarani. (Doadores voluntários podem deixar na Sala dos docentes).
Coleta de assinaturas contra a PEC 2015.
DIA 20, sexta-feira.
18h – Oficina de Tranças e apresentação do Coral Imigrantes Haitianos
Local: Passarela Verde – Palco Hipermídia, bloco C.
19h – Roda de conversa com Haitianos de Palhoça.
Curiosidades da cultura haitiana. Dificuldades e propostas para bem viver no Brasil.
20:30h Momento musical e homenagem com o diploma ReconheciNegro.
Local: Sala 121 – Bloco B.

ReciclAr-te 5º Desafio Lixo Zero

ReciclAr-te 5º Desafio Lixo Zero
5ª edição do evento que conscientiza os universitários sobre os seus resíduos sólidos, promovido pelo Revitalizando Culturas.           

Escrito por: Natalia Santos de Pinho

Nos dias 28 e 29 de outubro de 2015 ocorreu o evento RecliclAr-te 5º Desafio Lixo Zero, na Unisul campus Pedra Branca. O evento foi promovido e organizado pelo projeto Revitalizando Culturas com o Prof Jaci Rocha Gonçalves. Participaram os cursos de engenharia ambiental e sanitária, naturologia, comunicação social, UNAs, departamentos vários da Unisul e empresariado local.
O evento promoveu a conscientização sobre coleta de resíduos através de atividades de teatro, videofórum, palestras e oficinas. A abertura do primeiro dia do evento foi com Palco Livre no Restaurante Universitário juntamente com o lançamento do canECO, canecas de plástico e de barro produzidas pela Escola de Oleiros de São José (SC). Essas canecas foram lançadas com o intuito ecológico de serem sempre reutilizadas substituindo copinhos plásticos.
No mesmo dia ocorreu a criação da Árvore Denunci-anunciativa onde os alunos puderam escrever recados e pendurá-los na árvore. Também a realização de uma Feira Livre onde puderam trocar, doar e vender roupas e objetos que não são mais usados. Um dos momentos mais especiais foi a apresentação do Grupo Maracatu Tamboritá, a maioria alunos e egressos de naturologia do campus. Chamando a atenção de todos que estavam presentes. Outro momento importante foi a reunião para a construção da Liga Sócio-Ambiental da Unisul Pedra Branca.

No segundo dia os participantes foram convidados a levarem seus resíduos sólidos e óleo de cozinha para doação a famílias recicladoras da PRO-CREP no bairro da Pinheira. Dois trabalhadores estiveram presentes para representar o projeto e explicar o funcionamento para os universitários. No mesmo dia ocorreram intervenções artísticas, exibição de curtas e oficina de Contato & Improvisação. 

Alunas da naturologia ajudando na organização e criação dos recados para a árvore Denunci-anunciativa.

Oração com todos os participantes do ReclicAr-te 5º Desafio Lixo Zero.

Universitários pendurando seus recados na árvore Denunci-anunciativa.

Cantores no Palco Livre do Restaurante Universitário.

Grupo de Maracatu Tamboritá. 

CanECO de plástico e de barro para a conscientização  e não utilização dos copos plásticos.

             Interação artística no Restaurante Universitário.

Reunião com os trabalhadores da PRO-CREP e coordenação da engenharia sanitária e ambiental.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Unisul participa da tomada de posse dos conselheiros e suplentes do Conselho Municipal de Políticas da Cultura

Unisul participa da tomada de posse dos conselheiros e suplentes do Conselho Municipal de Políticas da Cultura
O Prof Jaci Rocha Gonçalves participou como representante da Unisul nesta terça feira, 20 de outubro de 2015 do evento que ocorreu na Prefeitura de Palhoça.

Escrito por: Natalia Santos de Pinho


Estavam presentes no evento autoridades da Fundação Municipal de Cultura, como José Virgilio Junior secretário municipal de cultura e esportes. O diretor de cultura, Ricardo Porto que também é músico. O representante da Unisul, Prof Jaci Rocha Gonçalves. O coordenador do centro esportivo Caranguejão, Maicon. Também contou com a presença dos artistas Teresinha Costa, Tatiane e Takashi Severo, que é dramaturgo dos Bruxos da Corte. Também estavam presentes presidente do Conselho Municipal de Políticas de Cultura Ademir Bussolo e o prefeito municipal, Camilo Martins.

O Prof Jaci representando a Unisul lembrou que esse conselho possui uma grandeza ética já que trabalha com a cultura que é responsável por gerar um dos espaços de sentido na vida de um povo e ao mesmo tempo cultiva sua justa dignidade cultivando o Ethos próprio do Palhocense, o seu jeito próprio de ser.

O prefeito Camilo disse que a situação para chegar aonde já chegou não foi fácil, mas que existe uma série de parceiros que estão dispostos a enfrentar esse grande desafio que é trabalhar com a cultura. O prefeito lembrou que foi através de um trabalho cultural passando de bairro em bairro se tornou conhecido nas comunidades. Fez uma listagem completa da parceira e da força que tem recebido da Unisul, e agora contando mais uma vez com a presença da Unisul para criar um grande projeto cultural para o município de Palhoça.


Takashi valorizou o centro esportivo CÉU localizado no bairro Jardim Eldorado, valorizou assim a importância do conselho de cultura e lembrou que a lei municipal de cultura é ainda recente. Infelizmente a Palhoça ainda não tem a valorização adequada de seus artistas, a própria população se desconhece. Com essa criação do Conselho Palhoça está em busca da sua própria identidade.

Fotos por: Danilo Garcia











Espiritualidades no timing da vida

Espiritualidades no timing da vida

Francisco: Um papa SSD, sem papas na língua

Escrito por: Jaci Rocha Gonçalves

Espiritualidades no timing da vida é nosso novo pré-título da crônica quinzenal porque significa o tempo não medido pelos relógios, calendários e cronômetros. É como o kairós dos egípcios e gregos prá indicar o tempo oportuno, como quando a colheita dos frutos está no ponto e as pessoas sentem momentos marcantes na vida. Como no reencontro-surpresa de uma pessoa amiga, mesmo no Face, que reduz 50 anos na sensação de tê-la visto ontem à noite. Tenho experimentado muito isso, graças ao virtuoso no virtual; são encontros de espiritualidade terapêutica porque refazem sentidos de viver e de conviver, nos sacodem e nos acordam da mesmice do cotidiano.

É o caso de pessoas como o papa Francisco com seu efeito-surpresa regenerador de valores esquecidos até por pessoas com rótulos religiosos (como o colega debatedor religioso que o criticava como popstar - caçador de fama e glamour - um “comunista” disfarçado em amor aos pobres). Pena que o fez no minuto final do debate. Em tempo de escassez de lideranças autênticas deve ser mesmo desconcertante para os pessimistas, mesmo sob títulos de religiosos, serem surpreendidos por uma autoridade espiritual que se diz “aquele que vem do fim do mundo”,  que pede a bênção e preces a seu povo; que distingue a pessoa de seus estereótipos como “separada”; “divorciado”; “gay”; “imigrante”; “favelado”; “índio”, etc.

Após o debate, reli o que disse Francisco nos 50 min de entrevista à queima roupa na viagem de retorno de Cuba e EUA. Sobre o sucesso: “Não sei se tive sucesso ou não. Mas tenho medo de mim mesmo, porque me sinto sempre – não sei bem como dizer – fraco, no sentido de não ter poder; É importante se, com o poder, consegues fazer algum bem. E Jesus definiu assim o poder: o verdadeiro poder é servir, prestar serviço, fazer os serviços mais humildes. E eu tenho ainda de avançar por este caminho do serviço, porque sinto que não faço tudo o que devo fazer”.

A última jornalista lhe diz: “É bom para a Igreja que o Papa seja uma estrela, uma star?” Francisco foi gentil, mas também direto: “Sabes qual era o título que usavam os Papas, e que se deve usar? “Servo dos servos de Deus (SSD)”. É um pouco diferente de estrela! As estrelas são bonitas quando as olhamos; eu gosto de olhar para elas, quando o céu está sereno no verão... Mas o Papa deve ser – deve ser! – o servo dos servos de Deus. Sim, na mídia, usa-se o termo “star”; mas há outra verdade: quantas “star” vimos nós, que depois se apagam e caem... É uma coisa passageira. Pelo contrário, ser servo dos servos de Deus (SSD), isto é belo! Não passa. Não sei que mais dizer. É assim que eu penso.”


E com firmeza serena de avô espiritual da humanidade, Francisco faz coisas simples, mas inéditas, como canonizar o casal Luís e Maria Zélia, pais de Santa Terezinha. É sábio como nosso povo ao curtir a Festa de Todos os Santos e Finados; mostra aí sábia rebeldia que garante a dignidade dos que convivem na  rotina sagrada de nosso vai-e-vem cotidiano. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

No dia 28 de outubro de 2015 ocorreu o primeiro dia do evento ReciclAr-te 5º Desafio Lixo Zero, promovido pelo Revitalizando Culturas na Unisul Pedra Branca. Este vídeo contém alguns momentos do Grupo Maracatu Tamboritá gravados pelo nosso amigo e professor Roberto Svolenski. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Grande alegria no Revitalizando Culturas: o doutorado da cineasta negra Cleuza Soares

Grande alegria no Revitalizando Culturas: o doutorado da cineasta negra Cleuza Soares


O coordenador do grupo de pesquisa, ensino e extensão Revitalizando Culturas - Prof Jaci Rocha Gonçalves se emociona pela participação da banca de doutorado de Cleuza Maria Soares.



Um momento de grande alegria no Revitalizando Culturas foi a participação do Professor Doutor Jaci Rocha Gonçalves na comissão examinadora para a qualificação de doutorado da cineasta e filósofa Cleuza Maria Soares com a proposta do tema Negra Soy! Negra Sim! Estética Decolonial no Cinema Nacional Contemporâneo no CCE da UFSC, sob a presidência de Claudia Junqueira de Lima Costa a banca formada pela Drª Susan Aparecida de Oliveira e o Dr. Jaci Rocha Gonçalves. Na área de Literatura, há alguns dias.


Jaci disse ainda que Cleuza Maria Soares é dessas mulheres guerreiras porque mãe de família, operária e ativista comunitária. Elas se dedicam a negar as negações sobre o seu povo negro que mora nos morros, onde ela também reside. Negra, ela tem enfrentado a temática já na sua conclusão da faculdade de Cinema e Audiovisual na UNISUL com o conhecido vídeo documentário Semeadura sobre a questão da política de inclusão e as cotas.


Desta vez mais do que fazer negações, Cleuza aponta caminhos de afirmação da riqueza das negritudes do Brasil a serviço de um novo momento por um Brasil mais ético porque menos desigual. “O convite de Cleuza me fez recordar todo um percurso de acadêmicos negros que têm freqüentado aqui a UNISUL Pedra Branca e que têm voltado para o meio de seu povo resolvidos a refazer histórias. São pessoas cujo diploma faz brotar um Brasil mais justo e mais responsável”, conta o professor Jaci.


Da esquerda para a direita, Professor Doutor Jaci Rocha Gonçalves, Doutoranda Cleuza Maria Soares e Prof Drª de Claudia Junqueira de Lima Costa

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Espiritualidades no timing da vida


Espiritualidades no timing da vida

Outubro: Anjos, Franciscos, Terezas, Crianças e Aparecida

Escrito por: Jaci Rocha Gonçalves

Na bancada da TV, durante debate sobre o Projeto de Lei 6583/13, estavam: à minha esquerda,umaparticipante laicistaque reclamava da imposição de conceito minimalista sobre família feita por alguns partidos de maioria evangélica ultraconservadora; À direita, um bispo evangélico que classificava as posições do Papa Francisco como comunistas. O jornalista moderador da emissora era de religião judaica e perguntava pelas saídas para o Estatuto da Família diante de tantos fundamentalismos com base religiosa.

No primeiro bloco ponderei que o Congresso perdera uma grande chance de dar voz e consultademocrática ao povo. Lembrei que o Papa Francisco deu exemplo de democracia,fazendo consulta em todas as comunidades católicas sobre o tema da família hoje.Nosso diálogo no debate não foi tranquilo. Voltei pra casa com o sabor de conversa incompleta.

Lembrei-me, então, das espiritualidades cristãs própriasdos meses de outubro. E começo com as lembranças de Tereza, jovem santa que morreu aos 24 anos de idade, tornando-se padroeira das missões inclusivas. Ela vivia sob o lema “muitos falam de Deus aos homens, nós falamos dos homens a Deus!”. Nunca saiu do claustro, mas vivia em sintonia plena adotando a inclusão da humanidade em sua reza com o Divino.

No dia 03, o mês de outubro nos brinda com os Santos Anjos, devoção não apenas de católicos, mas também dos que descendem da Mama África e dos povos originários. Quem esquece o “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador...”?

Tereza e os Anjos são duas devoções, heranças de nossos ancestrais, que só completam o ciclo com o santo homenageado do dia 4 de outubro: São Francisco de Assis.

O jovem todo desprendido da Praça Central de Assis, sem roupa, sem grana, sem fama, sem sobrenome, se embrenha na floresta adotando nova família com um único sobrenome: ser vivo! Parente das aves e árvores, do sol e da lua, dos animais da terra e das águas. Dentre os humanos, elegeu como íntimos os ditos leprosos, aqueles que viviam excluídos fora dos muros de sua cidade.

Os amores de sua aliada, Clara de Assis, e de seus amigos que buscavam novos e profundos sentidos, remexeu aos poucos as estruturas sociais pesadas e encardidas pelo contexto de ambição e desigualdade. Ele mais pareceu uma versão de Cristo medieval para remoçar a vida das crianças de seu tempo e de nossos tempos - crianças com a autoridade dada pelo povo Guarani(bem antes dos tempos de São Francisco): “são nossas educadoras, porque são mensageiras de Nhanderu, nosso Pai”.


Nosso povo criou-lhe o apelido carinhoso de Chico. Foi um ser humano inspirador, sem fronteiras religiosas e ideológicas. Mas as espiritualidades dos outubros têm muita riqueza a explorar de outros Franciscosinspirados na Aparecida pescada nas tarrafas e perturbadora de estruturas escravocratas. Depois do debate, pensei muito mais. Mas fica pra próxima coluna amigos!

Preparação para o ENEM indígena

Preparação para o ENEM indígena

Alunos da UNISUL contribuem para preparação dos Guarani para o Enem 2015.

Por: Natalia Santos de Pinho

Nesta quinta feira, 15 de outubro de 2015, dia dos professores, a extensionista do Revitalizando Culturas - UNISUL e mediadora cultural, Rafaela Iwassaki juntamente a dois voluntários do curso de Naturologia, Iuri Rocha e Bruna Roggeri, foram até a Aldeia Itaty no Morro dos Cavalos em Palhoça para encontrar com jovens Guarani que estão se preparando para o ENEM deste ano. Na semana anterior, foram dois alunos do curso de Direito que se voluntariaram: Marcos Vinicius e Guilherme Duarte de Souza - atual presidente do DCE.
Esta atividade só foi possível graças à colaboração da diretora da Escola Indígena Itaty - Elizabete e do coordenador do grupo de pesquisa, ensino e extensão Revitalizando Culturas - Prof Jaci Rocha Gonçalves.
No primeiro encontro, Rafaela, Guilherme e Marcos contribuíram com conhecimentos de matemática. No segundo encontro, a aula foi a respeito de questões práticas da prova e de como fazer uma redação dissertativa-argumentativa. Foram distribuídas instruções sobre o dia da prova e também um material sobre redação, com 10 dos prováveis temas para a redação do ENEM 2015. Alguns destes temas foram discutidos em sala e os guaranis que escolheram um deles para escrever uma redação que foi trabalhada no mesmo dia.
Depois da aula, que durou cerca de 3 horas, Rafaela conta que se sentiu muito feliz por ter tido a oportunidade de contribuir para essa preparação dos indígenas. “Eu achei que eles ficaram felizes e motivados a fazer a prova”, conta ela.


Da esquerda para a direita: Iuri Rocha, diretora Elizabete, Rafaela Iwassaki e Bruna Roggeri


Da esquerda para a direita: Marcos Vinicius, Rafaela Iwassaki e Guilherme Duarte de Souza


Marcos Vinicius e a índia Fabrícia

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Palestra Arqueologia dos saberes e fazeres Mbyá-Guarani

Na 9ª Primavera dos Museus ocorrida no Museu Histórico de São José o palestrante da noite do dia 25 de setembro de 2015 foi o Professor Dr. Jaci Rocha Gonçalves, do Revitalizando Culturas da UNISUL.
Por: Natalia Santos de Pinho

O professor Jaci Rocha Gonçalves foi convidado pela Secretaria da Cultura de São José para ser o palestrante sobre o tema “Museus e Memórias Indígenas”. Jaci foi o primeiro nome lembrado por ser referência no assunto, juntamente com o projeto Revitalizando Culturas e com a ajuda da mediadora cultural, a estudante de naturologia Rafaela Iwassaki.
A noite foi iniciada com a palestra do professor sobre a cultura indígena guarani e contou com a participação de alunos, professores e organizadores do EJA – Educação de Jovens e Adultos. Os alunos estavam especialmente animados já que iniciavam a retomada dos estudos. Houve uma grande interação comunitária, todos se mostraram ansiosos em aprender preenchendo cada espaço vazio com perguntas.
Natal Dias Araújo, coordenador do EJA da Escola Municipal de Forquilhinhas, disse que “com frequência nos dedicamos a estudar os povos do outro lado do oceano e esquecemos os nossos povos originários brasileiros”.
Houve momentos emocionantes como o contato com os livros de autoria indígena e suas fotos com pinturas corporais. Como dito pelo professor Jaci, “antes os brancos que falavam aos índios, agora são eles que falam aos brancos e mostram muitos saberes inéditos”. Esta noite foi especial para os indígenas, os alunos do EJA e todos os outros presentes. Foi importante para conhecermos a cultura dos nossos povos originários e também descobrir nossa essência.


Revitalizando Culturas faz exposição

Exposição do projeto Mediações Culturais do Grupo de Pesquisa e Extensão Revitalizando Culturas da UNISUL, da Escola Indígena e aldeia Itaty do Morro dos Cavalos na 9ª Primavera dos Museus. A exposição no Museu Histórico de São José iniciou-se no dia 25 de setembro de 2015 e se encerra no dia 11 de outubro de 2015.
Por: Natalia Santos de Pinho
Com o tema de Arqueologia dos saberes e fazeres Mbyá Guarani foi produzida uma exposição com o trabalho etno-fotográfico, “Um olhar indígena sobre o cotidiano” da aldeia Itaty, composto por fotos feitas pelos próprios guaranis. Também contou com outros arquivos do acervo do Revitalizando Culturas, entre eles estão filmes sobre os guaranis, cd e livros de autoria dos próprios guaranis. O programa Revitalizando Culturas há 18 anos na UNISUL estimula o protagonismo dos indígenas.
A exposição foi inaugurada com a participação de alunos e professores do EJA – Educação de Jovens e Adultos do município de São José, alunos da UNISUL e presenças da comunidade, junto das autoridades responsáveis pela cultura.
O professor Jaci lembrou na Praça de São José da chegada dos açorianos em 1748 e o Tratado de Madri no ano de 1750,  que teve violenta ação contra os povos originários do nosso país. Foi quando Espanha e Portugal se uniram contra os 900 povos originários.  “Quando o Diretório de 1755 proibiu de falar a língua inter-étnicaTupi-guarani foi uma violência de alma desses povos. Os nomes, símbolos, ritos, crenças, tudo em que os povos acreditavam foi proibido. Foi um tiro mortal na cultura para então prevalecer apenas a língua portuguesa” comentou o professor.
No evento nacional da 9ª Primavera dos Museus e a exposição se unem aos esforços de reparação às violações de direitos culturais dos povos originários e de aprendizado tardio de seus fazeres e saberes essenciais para quem quer ser feliz vivendo nos trópicos. Um cenário sempre mais diferente daquele ocorrido em 1750.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Quando você ouve o Invisível?

Quando você ouve o Invisível?

Escrito por: Jaci Rocha Gonçalves

Acompanhado de outro sexagenário jornalista, do meu filho mais velho e do amigo Danilo, amanheci na Orionópolis Catarinense, uma conhecida vila que abriga moradores com plurideficiência e em estado de abandono. Abrindo o portão estava o Tico, já cinqüentão, a nos acolher. Ele foi um dos primeiros moradores, oriundo do Saco dos Limões, em 1991. A Orionópolis fica às margens da embocadura do rio Maruim, do lado de São José, na divisa com Palhoça.

Meu coração estava disparado. Era sábado, dia 5 de setembro de 2015. Fui convidado a palestrar no ENAJO – Encontro Nacional da Juventude Orionita. No grande pátio, entre os jardins, vários ônibus que chegavam desde a aurora. O coordenador do ENAJO, antes de me dar bom dia, já foi desabafando:  “Estou impressionado com a espiritualidade dessa juventude. Ao longo da viagem, desde o interior paulista até aqui, achavam jeito de rezar de mil maneiras, maninho!”

Olhei, então, para a Pedra Branca à minha frente e o Cristo da Esfinge me piscou, assim como fizera tantíssimas vezes desde o início dos mutirões para construir aqueles lares e acolher quase duas centenas de moradores descartados pela sociedade. No salão, uma banda animada ditava o ritmo para os jovens dos 15 aos 23 anos, com a pilha toda.

O papo se inspirou em  São Luís Orione (daí o nome Orionópolis), dando dicas para o tema FORTES NO AMOR. Seguimos o roteiro do longametragem Algo de Dom Orione, prêmio do cinema italiano em 1990, o qual recuperamos na Unisul. O cineasta Ermano Olmi revê a vida do santo focando seu exílio na Argentina dos 64 aos 67 anos e seu regresso à Itália, onde morreu em 1940, aos 68 anos. 

A primeira dica foi a determinação do santo ainda adolescente de cultivar o AMOR FONTAL. Sobre esse tema, um dos jovens participantes me mandou esse e-mail, após o encontro.

“Qual é a fonte do amor? Pela revelação cristã, Deus não só ama, mas Ele é amor (I Jo 4, 8). Há diferença entre amar e ser amor. E para haver amor há necessidade de relação: o Pai que ama e se doa eternamente ao Filho Jesus; e o Filho Jesus que ama e se doa eternamente ao Pai. Dessa relação de entrega do Pai e do Filho brota o Espírito Santo, Senhor da Vida! Portanto, Deus revela seu mistério e identidade como uma eterna comunhão de amor! E nós, também fomos criados à ‘imagem e semelhança’ (Gn 1, 27) deste Deus que é comunhão de amor. Então, somos criados como um derramamento de amor e para a comunhão de Amor! O céu é participarmos dessa comunhão eterna de Amor. E já começa aqui e agora, no relacionamento com os meus irmãos. Por isso Jesus nos diz: ‘Que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei!’ (Jo 15, 12). O amor é uma escolha que, inspirado no amor de Deus, vai além das limitações da concupiscência (tendência ao pecado, ao egoísmo) e nos permite encontrar aquilo que há de mais sagrado em nós. Pela oração acesso sempre o Amor Fontal”.

Não acreditei no que li. Como o Sant’Orione, o garoto também se posiciona como  alguém de FÉ que se dá o direito de viver como se visse o invisível. Ele se dá tempo suficiente e hábito de viver, ouvindo seu Deus em meio a toda a parafernália eletrônica.

Vale a pergunta: Quanto tempo e quando cada um de nós ouve  e se entretém com o Invisível? Desde garoto, Orione quer se doutorar na ciência do amor ao próximo. E não vai só. Reúne a turma do outro lado do rio da cidade de Tortona, o bairro dos pobres, dos comunistas, dos que não contavam e eram vistos como perigosos. E a terceira dica do santo no filme é a vivência da virtude da ESPERANÇA. Orione desafia desafios, inventando sempre saídas criativas. 

O caos para ele é fértil. Enquanto o navio se afastava do cais do porto italiano de Gênova para levá-lo ao exílio na América Latina, escreve esse bilhete:“Hoje tenho uma vontade enorme de dançar: - haverá dança no Paraíso?Sabemos que existe música, deve existir dança também: eu quero cantar sempre e dançar sempre. Se preciso, Nosso Senhor me dará uma sala especial para não perturbar muito os contemplativos. Estou feliz porque no Paraíso haverá sempre festa: e, nas festas, existe sempre alegria, cantos, danças, em Deus... Eu quero manter todos alegres: cantar e dançar sempre. Que me conheçam como o santo das danças, das canções e da alegria em Deus”.

É claro que nossa oração final foi dançando o refrão do samba: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz, ai Meu Deus! Eu sei...



*O DVD com o filme “Algo Sobre Dom Orione”, pode ser adquirido no Revitalizando Culturas (Unisul Pedra Branca) ou na Orionópolis Catarinense.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Espiritualidade da Montanha V: O santo vício dos povos



Espiritualidade da Montanha V:
O santo vício dos povos

Escrito por: Jaci Rocha Gonçalves

A penúltima pergunta do sexagenário aprendiz de repórter sobre nossas missas de Primavera na Pedra Branca é se existem relatos de que os índios, em determinado tempo, procuravam sempre os morros altos, como nós temos aqui o Cambirela, a Pedra Branca. “Isso é algo da cultura deles?” Eu lhe respondo no documentário ELA que esse viés é papo para “varar” a noite jogando conversa fora.


Na verdade, parece que a riqueza de relatos sobre os montes sagrados ocupa lugar de destaque entre os povos originários de cada canto de  nosso planeta. Monte sagrado é um bom verbete para guglar e fazer seu inventário entre os povos. Talvez se conclua com a pergunta: Será que algum povo vive sem o santo vício de uma montanha sagrada?

Uma aluna curiosa de naturologia da Unisul me contava que guglou sobre o monte sagrado da Austrália que voltou a ser chamado pelo nome aborígene só a partir dos anos 80 e o povo Anangu voltou a ser seu guardião. É isso mesmo: no Extremo Oriente, os japoneses têm um xodó pelo Monte Fuji; na Ásia, o Monte Kailash é fonte de seus maiores rios e é sagrado para quatro religiões: hindus, budistas, jainistas e os tibetanos indígenas de Bön.

No Oriente Médio, os montes sagrados do Sinai, Garizin na Samaria, o Moriah de Jerusalém e o mais famoso para os cristãos: o Monte Calvário, são alguns de centenas que inspiram a tradição judaico-cristã e o islã. Os gregos têm o Olimpo e Roma as sete colinas sagradas. Esse fascínio hereditário dos povos por se inspirar e refazer na espiritualidade da montanha veio de além mar pelos nossos pedagogos açorianos, alemães, italianos, franceses, espanhóis e árabes.

Desde menino já cantávamos: “Subiremos montanhas sagradas, colinas suaves do amor cristão!”,ou, com Roberto Carlos: “Eu vou subir a montanha e ficar bem mais perto de Deus e rezar; vou pedir que as estrelas não parem de brilhar, que as crianças não deixem de sorrir e que os homens jamais se esqueçam de agradecer!

Os nossos povos da Ameríndia, do Alaska à Terra do Fogo, passando pelas pirâmides maio-astecas, pelos mestres espirituais dos povos andinos do Alto Peru e esse baixo andino amazônico onde vivemos,  também buscavam sentidos para bem viver e conviver. Cerca de 900 povos se alimentavam da espiritualidade em seus montes sagrados.

Desde 1999, alguns alunos da Unisul tiveram um cicerone Guarani para escalar o Morro dos Ancestrais, o Morro dos Cavalos. Desde 2002, tive a graça de ver vários Karaí acompanharem jovens aqui da Universidade em Casas de Reza aos pés da Pedra Branca. Os velhos xamãs testemunham que também aqui na montanha, os seus ancestrais vinham se encontrar com Deus.

Quanto ao Cambirela, os Guaranis explicaram num dos livros didáticos que significa “seios mamados; seios de mãe”. É uma espécie de reconhecimento no próprio nome da força vital que a montanha exerce sobre os povos. Saúde plena, integradora do ser, força holística.

Se você tiver a graça de escalar a Pedra Branca nesta Primavera de 2015, com o apoio do Marquinhos, cicerone conhecido na Unisul, chegando ao topo, reze esses versos por mim, já que meus joelhos me impedem de chegar lá:

Criador dos montes, onde geras as nascentes de tantas cachoeiras e rios, ensina-nos a exigir respeito, cuidado e veneração por este e outros lugares sagrados. Agora que as máquinas poderosas do Anel Viário estão chegando, ajuda-nos a impedir mortes desnecessárias de nascentes afogadas, matas e animais destruídos e, sobretudo, de moradores antigos e indefesos. Que saibamos manter este santo vício dos povos: a espiritualidade da montanha que clama vida para todos e tudo.

Jaci Rocha Gonçalves é Padre, Doutor em Teologia,Filósofo, estudou comunicação no Vaticano e é Professor da Unisul.