segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Professor Jaci foi tema de fim de ano do jornal Palavra Palhocense

Jaci Rocha Gonçalves: um incansável ativista e servidor da humanidade
17/12/2014 22:08:58
Valores como espiritualidade, solidariedade e fraternidade sempre permearam a trajetória do professor, teólogo e filósofo radicado em Palhoça.

Texto: Ana Paula Flores

Uma busca espiritual profunda sempre moveu adiante o professor Jaci Rocha Gonçalves. Foi o que o levou tanto a decidir, aos 10 de idade, que queria ser padre, quanto aos 49 anos, deixar de sê-lo. Hoje, aos 65, é com voz serena e uma memória rica em detalhes que ele relata a imensa diversidade de episódios de sua vida, incluindo experiências em Roma, no Vaticano e na ilha de Cabo Verde, na África.

A vocação para o sacerdócio surgiu na infância, quando pediu ao pai, ferroviário que vivia em Capivari de Baixo, para fazer o exame de admissão para o colégio Dehon, em Tubarão. Na época, as crianças deveriam passar pela prova para serem admitidas no que corresponde hoje ao Ensino Fundamental II. A solicitação em tão tenra idade foi encarada com naturalidade pelos pais, participantes da Igreja Católica local e da Legião de Maria, uma associação religiosa formada por leigos.

A família, constituída por oito filhos, estava habituada e receber em casa operários e pessoas mais pobres que mendigavam próximo à linha de trem que vinha de Laguna. Espelhando-se nesses exemplos e gerado nesse “útero pedagógico”, nas palavras do próprio Jaci, é que ele cresceu aprendendo a exercitar três valores que sempre leva consigo: espiritualidade, solidariedade e fraternidade.  Apesar da certeza de sua decisão, o trajeto de trem para a escola preparatória, onde deveria ficar longe da família, não foi fácil. Ele chorava incondicionalmente e seu pai questionou a razão. Ele lembra que dizia ao pai: “Eu tô chorando, mas eu quero ir”.

Ao longo da infância continuou estudando e aos 16 anos fez os votos religiosos de pobreza, castidade e obediência na Congregação de São Luis Orione. Entre essa idade e os 49 anos viveu em diversas cidades de Minas Gerais, São Paulo, Paraná e também em Brasília. Uma das experiências mais marcantes do jovem religioso foi em Cotia (SP), onde trabalhava na Orionópolis com pessoas com deficiência: “Ali, carregando as pessoas no colo, tive a confirmação de que aquele jeito de viver era o que me fazia feliz”. 

Depois disso, também atuou em colônia agrícola, lares de meninos órfãos, jovens infratores, com pessoas sem-teto, entre outros necessitados de apoio material e espiritual. Ainda em SP, desta vez em Guararapes, lembra da época, durante a ditadura militar, em que criou um programa de rádio com grupos de jovens da Igreja: “A gente escrevia os textos, entregava para o delegado aprovar e carimbar. Só depois a gente podia ler na rádio”.

Já na capital paulista, o jovem Jaci permaneceu dois anos na sede da ordem de São Luís Orione no Brasil, para cursar a faculdade de Filosofia e Teologia na PUC. Ele estudava pela manhã e à tarde dava aulas de ensino religioso em escolas públicas do bairro da Bexiga. Ali, teve o primeiro contato com crianças usuárias de drogas. “Era comum encontrá-las cheirando cola”, descreve, quando presenciava o começo da disseminação das drogas ilícitas. O curso superior foi finalizado na PUC em Belo Horizonte, onde trabalhava no seminário e em um orfanato com 150 meninos.

Na época de sua ordenação, em 1975, aos 24 anos, voltou para SP para receber o sacramento na Igreja do Bexiga, conhecida como Nossa Senhora de Achiropita. Nessa época, ele era líder de grupos de jovens, usava cabelo comprido e foi persuadido a cortar, mas respondia: “Se não usar o cabelo assim, os jovens se afastam da Igreja”. A desculpa foi aceita na época, e o cabelo é mantido assim até hoje, com um pequeno rabo de cavalo.

Viagens pelo mundo

A desenvoltura com o microfone e a crença na comunicação como uma forma de evangelizar despertaram em Jaci a vontade de estudar jornalismo e comunicação. Os temas sempre permearam a trajetória do filósofo, que especializou-se em Roma, onde fez dois cursos de mestrados entre 1984 e 1986: O primeiro em Teologia e culturas (Missiologia), que teve como resultado uma dissertação que trata da relação do catolicismo com os povos de diferentes culturas. O outro mestrado foi em Comunicação Social, em que estudou a comunicação social nas comunidades eclesiais de base e movimentos comunitários católicos.

Ainda na Itália, manteve contato com o jornalismo ao estagiar na Rádio Vaticano e criar o primeiro programa internacional para jovens de países de língua portuguesa: Itinerário Jovem. “Foi um pedido de São João Paulo II que fazia parte do projeto de criação da Jornada Mundial da Juventude”, detalha.

O professor voltou várias vezes a Roma para representar a Congregação de Dom Orione em ciclos de avaliação e planejamento. Em 1995 e 1996, retornou para fazer o doutorado em Teologia e Culturas (Missiologia). Ali concluiu a primeira tese doutoral sobre São Luís Orione em uma Universidade Pontifícia. O tema da tese foi o santo e as estratégias que utilizou nas lutas pelos direitos humanos dentro da Igreja Católica como o das pessoas com deficiência e o uso dos meios de Comunicação Social na época em que se inaugurava o rádio na América Latina.

Visitou ainda Cabo Verde, na África, como representante avaliador das comunidades orionitas nas ilhas do Sal, de Santiago, Santo Antão e São Vicente, ainda sob o regime soviético, em 1990. Voltou em 1995 como missionário. “Naquele deserto saariano Deus me fez reencontrar um povo sábio, que vive em espaços difíceis, unindo sacrifício e alegria”, descreve. As experiências na África, embora curtas, deixaram impressões profundas em Jaci: “Foram vivências de acolhimento e amor ao povo negro, cuja ligação de respeito e de valorização aprendi lá com meus pais no lar de Capivari de Baixo, especialmente na infância e pré-adolescência”.

Fundação da Orionópolis

Inspirado em sua experiência bem-sucedida de transformação de um hospício em um lar de acolhimento no Paraná, Jaci voltou para SC e criou um verdadeiro mutirão para a fundação da Orionópolis Catarinense, na região da Grande Florianópolis. Na época das atividades em Curitiba, ele afirma ter se impressionado com a condição dos pacientes: “Eu era um jovem padre, ainda não tinha preparação para ver tanto descaso com a pior das doenças de um ser humano: a doença mental”.

Ciente da necessidade imediata de socorrer vidas, especialmente das pessoas com deficiências múltiplas em estado de abandono, ele afirma que apenas atuou como mediador no mutirão que construiu a instituição em São José, em 1987: “Em todas as etapas, da concepção à inauguração da obra, da busca e cuidado das pessoas moradoras, o que fiz foi mediar e unir pessoas em um mutirão amplo e permanente”. A experiência rendeu-lhe a certeza de que um povo unido em torno de uma causa concreta é a moeda mais importante para a transformação. “Povo unido e reunido jamais será vencido pela miséria, abandono e corrupção, porque a solidariedade é o habitat humano verdadeiro”, considera.

Dentre inúmeras lições no processo de criação da instituição, Jaci afirma que aprendeu a dar aos acolhidos o nome de moradores. “Aprendemos que nesses moradores Deus nos estava oferecendo evangelizadores, professores de vida – pois amavam viver, apesar das inúmeras experiências na terra do ninguém”, explica, referindo-se à falta de cidadania com que eram tratados os portadores doenças mentais naquela época. “Assim, aprendemos que não era apenas nós que os ajudávamos, mas havia uma troca, porque eles nos despertavam e fortaleciam novos sentidos para viver felizes”, continua.

A vida em família

Aos 49 anos, Jaci fez o que chama de “reopção” de vida, que o levou a deixar de ser líder religioso e casar e constituir família. Hoje, pai de quatro filhos, ele analisa o processo como um “novo parto de si mesmo”. Depois de adoecer seguidamente, em função das intensas atividades sacerdotais, ele recebeu cuidados de muitos amigos, incluindo Janaina, voluntária de um projeto com crianças coordenado por ele em Capoeiras.

A amizade sincera, após quase sete anos, tornou-se, nas palavras do teólogo, “amor de nocaute” e aflorou nele o sonho antigo de construir uma família: “A castidade pediu família. A escolha de uma pessoa entre milhares aos poucos foi sendo aceita por mim como um caminho novo”, analisa. O processo de aceitação de mudança de vida, na visão de Jaci, ajudou a humanizá-lo: “O que me impedia de ter saúde era minha autossuficiência, que gerava um enorme ativismo – eu queria mudar o mundo e carregar a humanidade nos ombros. Ao invés de seguir a espiritualidade de Jesus, que era o servidor amoroso, aquele que pode carregar a humanidade sobre seus ombros amorosos”, descreve.

Orientado por padres terapeutas, ele escreveu uma carta contando a história de amor ao Vaticano e pediu para namorar por um tempo. Foi para o interior do estado, porque havia ficado muito conhecido na região. Depois de viver alguns anos em São José, veio há mais de 10 anos para a Enseada de Brito, onde vive tranquilo com Janaina e os quatro filhos: Luan (19 anos), Jonas (16), Moara (9) e Luna (7). “A comunidade me conhece e me deixa rezar meu terço sentado no banco da velha igreja; além disso faço alguns trabalhos pastorais e homilias”. 

Só diz não aos convites quando interferem nos seus dois maiores focos hoje: a família e o seu trabalho na universidade. Na Igreja Católica, padre casado é cassado de muitas atividades, no entanto, várias proibições podem ser desfeitas quando a igreja local o permite. Jaci é autorizado pela lei a confessar apenas os doentes, sobretudo nas UTIs, se chamarem pelo seu nome: “Isso é lei antiga. E tenho feito isso sempre que posso”, relata. 

No lar segue duas dicas que seus terapeutas lhe legaram: “Não transformar a casa em paróquia e ser aprendiz das riquezas da Igreja doméstica”.

A vida profissional

Jaci é professor da Unisul desde 1998. Na época, ele foi procurado para dar um ciclo de palestras sobre Direitos Humanos nos campi de Araranguá, Tubarão e Palhoça. “Ao final, me convidaram para trabalhar”. Assumiu então os serviços de ensino de Ética na Comunicação, Antropologia Cultural e Ensino do Sagrado na Filosofia. “Foi a continuidade das vivências e dos sonhos do menino do Capivari de Baixo se adaptando ao novo campo de missão: espiritualidade, solidariedade e cultivo de relações afetivas”.

Logo após seu ingresso, propôs a fundação do Programa “Revitalizando Culturas”, que orienta a atuação da Unisul com as culturas indígenas, açorianas, gauchescas, ítalo-germânicas e negras, tendo como foco de trabalho os povos originários, as pessoas com deficiência, as negritudes e as relações com o meio ambiente. Esse conjunto de povos sempre fez parte de antigas pautas de estudo e de vivências de Jaci ao longo da vida de serviços sacerdotais. 

Ele acredita que é preciso oferecer aos diferentes povos um processo de autonomia e emancipação que seja solidário e transformador, permitindo que eles sejam os produtores de sua própria história: “Nosso trabalho enquanto pesquisadores na academia continua sendo dar visibilidade a essas culturas, fortalecer sua autoestima e sua capacidade de falar por si só”.



O contato com o povo Guarani se deu ainda na Orionópolis, em 1991, quando teve a notícia de dois óbitos de uma criança e uma anciã indígenas, por subnutrição. Depois de abrir as portas para diversos caciques de terras indígenas, ele começou a partilhar espaços para reuniões. “Nasceram ali as leis para criação da escola diferenciada e o estímulo ao Nein – Núcleo de Estudos Indígenas”, descreve.

Em 1999, o programa ajudou na criação Conselho Estadual dos Povos Indígenas (Cepin), no qual o professor foi secretário geral, representando a Unisul, por oito anos. “Foi um tempo de muito trabalho e exigência em terreno tão movediço, porque polêmico. Afastei-me após os oito anos. Daí para cá fiquei apenas com autoridade acadêmica e não mais política. Não me sinto porta-voz deles. Enquanto se é padre, a autoridade é outra; há o apoio das igrejas e possibilidades de convocação ao diálogo. Não é mais meu caso no momento atual”.

Ele se refere ao processo de desintrusão, que inclui a desocupação da área e o pagamento de indenizações aos cidadãos que habitam o local. “Não tenho autoridade para mediar essa situação. Ela cabe às três esferas de governo, aos representantes indígenas, das comunidades organizadas, das ONGs envolvidas, do MPF, através de convocação para audiências públicas”, pondera.

Ciente de que apenas o diálogo pode levar a uma solução final para o demorado processo que permeia a aldeia indígena do Morro dos Cavalos, ele finaliza nossa verdadeira “aula-entrevista” com um desejo: “Torço para que todos os envolvidos, representantes comunitários e das igrejas possam dialogar para que as indenizações e condições de vida, não só dos guarani, mas também dos maricultores e ribeirinhos, sejam garantidas”.





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