terça-feira, 30 de junho de 2015

Espaço para a tolerância

PAULO CLÓVIS SCHMITZ

NOTÍCIAS DO DIA
FLORIANÓPOLIS, SEGUNDA-FEIRA, 29 DE JUNHO DE 2015 (versão impressa)

Casos recentes de intolerância no Rio de Janeiro e na Bahia deixaram a impressão de que as diferenças, no âmbito da religião, não são mais vistas como naturais, parte do rico mosaico cultural brasileiro, e sim como antagonismos que podem levar à violência. O teólogo e filósofo Jaci Rocha Gonçalves, professor da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), campus de Palhoça, acha que as próprias igrejas se perderam no caminho da construção de sentidos e acabaram gerando mais intolerâncias. No entanto, ele vê boas saídas com as perspectivas que se abrem para o "homem cuidador", preocupado com a ética e com a dignidade de todas as pessoas. Também o Papa Francisco, com sua postura de tolerância, pode abrir caminhos para que se entendam melhor as diferenças de que é feito o mundo.

A intolerância à diversidade religiosa vem crescendo no Brasil. O recente caso da menina que foi alvejada com uma pedra quando voltava de um culto afro no Rio de Janeiro é um exemplo disso. Como se pode explicar esse fenômeno?
A intolerância é maior e mais ampla que as religiões. A própria história das guerras é marcada por desencontros que decorrem do fato de que as diferenças não são vistas como uma riqueza, mas como uma ameaça. O caso da menina que levou uma pedrada reflete o fechamento de uma elite intelectual e pensante às vertentes da sabedoria. No Brasil, os movimentos de base popular são demonizados, e as bancadas religiosas no Congresso Nacional se defendem como facções, com seus componentes de fundamentalismo. Seja na política, na economia ou na religião, há dificuldades para promover o encontro com o diferente.

As religiões deveriam se pautar pelas causas da paz e da tolerância, mas às vezes incitam a violência.
O que fazer diante desse quadro?
As religiões poderiam adotar o caminho da construção de sentidos, mas se deixam violentar na sua razão de ser e carregam dogmas que resultam no fundamentalismo. Nenhum povo pode se achar único, escolhido, aquele que vai impor sua própria visão, preceito que é a gênese da intolerância e das guerras. Este mal afeta tanto o Ocidente quanto o Oriente. As religiões abraâmicas (derivadas do patriarca Abraão e que geraram o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo) são fundamentalistas desde que nasceram. Isso leva as pessoas a pensarem que podem matar em nome de uma crença. O mandamento "não matarás" é muito antigo, mas foi esquecido no exercício do poder, consolidando outras intolerâncias.

                                               
Grandes líderes tem agido de forma a incentivar a reação às diferenças, aqui e lá fora. Eles também são culpados pela intolerância vigente? 
O grande Deus é o fundamentalismo de mercado, que silencia até a mídia sobre o holocausto da fome no mundo. A violência e a intolerância resultam de um mercado que vive da morte alheia e das pessoas sem acesso ao mínimo poder aquisitivo. O ex-presidente americano George Bush era fundamentalista que invadiu o Iraque para buscar o Satanás. Os Estados Unidos têm cem anos de fundamentalismo, baseado na ética protestante e na crença de que os americanos eram o povo escolhido para zelar pela salvação do mundo.

O senhor vê alguma perspectiva de melhora, de abrandamento desse cenário?
Há uma agenda de reação, que parte da alfabetização para a responsabilidade com ética, para garantir a vida com dignidade para todos. É uma nova sensibilidade, focada no cuidado com a vida humana e a natureza. Um novo homem vai emergir, um homem cuidador que ajudará na busca de saídas para os problemas políticos, econômicos e religiosos. Nenhum poder poderá escapar disso. Trata-se de uma pauta internacional para as religiões, e até os sem religião poderão ajudar.

Com o papa Francisco, a Igreja parece mais aberta a discutir questões como a tolerância e a liberdade religiosa. O senhor também alimenta essa esperança?
O papa Francisco não se nega ao diálogo profundo com o diferente. Ele é um efeito surpresa que restabeleceu relações com todos e adotou uma postura de perdão que nenhum outro pontífice havia conseguido, por mais que tentasse. Ao abraçar um sábio muçulmano, recentemente, ele quebrou um paradigma. Também em Turim, depois de quase 500 anos, ele deu um abraço num luterano. É um caminho possível para o aumento da tolerância. Em suas falas, ele sempre usa o nome dos pobres e dos miseráveis. Ele está lavando o poder do Vaticano e criou o conceito de homo serviens, o homem para servir.

A educação, as escolas e as universidades poderiam contribuir para uma mudança nesse quadro?
A luta pelo respeito às diferenças é realizada com muita timidez na educação. A lei que prevê a criação de materiais sobre a cultura indígena nas escolas, por exemplo, não é cumprida. Estou com 66 anos e pertenço à geração que lutou por essas bandeiras. A educação aprofunda o conhecimento das leis, que são irreversíveis e dão esperança de sustentação jurídica a causas importantes. A escola é um espaço sagrada para a difusão da diversidade e a tolerância. Sobretudo a escola pública, porque a universidade ainda é composta por guetos. A universidade é espaço de poder e também precisa se lavar.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Pedra Branca e a Espiritualidade da Montanha

Artigo publicado no Jornal Cotidiano Pedra Branca


O repórter sexagenário me perguntou: Professor Jaci, quando surgiu a ideia de subir o Morro da Pedra Branca e lá no alto rezar missa?

Na verdade, as missas no Alto da Pedra Branca recomeçaram na primavera de 1987. Eu disse ao repórter que rezar missas nas montanhas, sob o templo do tempo, ou sobre as pedras da Praia da Joaquina, para acolher o primeiro sol do ano é um costume; provável fruto de herança plantada por alguns sábios na minha infância e adolescência. Disse-lhe que talvez essa herança poderia ser resumida como “a espiritualidade das montanhas”.

Os sacerdotes, nossos educadores no seminário, aos pés da Serra do Mar, em Siderópolis, sul de Santa arina, nos inícios dos anos 60, promoviam longas caminhadas de fins de semana nas montanhas. Organizávamos os grupos no dia anterior e saíamos de madrugada para enfrentar os desafios. Resultado: aprendi um jeito de olhar pro alto e, desde as alturas, educar o olhar sobre a vida na planície com seu cotidiano de cidades.

Mais tarde, quando jovem padre no Paraná, já na década de setenta70, eu levava as comunidades da região de Curitiba para o Morro do Anhangava, retomando o costume de rezar missa naquele topo estratégico durante a segunda guerra mundial. De fato, ali se tem a visão do litoral e de todo o planalto paranaense. Contavam os mais velhos sobre um frei que animou a construção de uma grutinha dedicada à Nossa Senhora da Paz, pedindo pelo fim da guerra. O costume foi  interrompido na década de 50.

Um ano antes de mim, em 1975, um padre sonhador, chamado José, recomeçou a peregrinação e eu o substituí como quem assume o compromisso de manter acesa uma espécie de “tocha olímpica de esperança”. Na verdade, eram tempos proibidos de reuniões, de afirmação de cidadania e de educação para uma liberdade responsável. Tínhamos sempre a companhia da polícia política; mas conhecíamos todos.

A multidão se reunia em 1º de maio e na chegada da Primavera. Virou tradição. Chegamos a fazer muitas missas no alto do Morro do Anhangava. A tradição continua até 2015: os netos e bisnetos testemunham no Facebook que o fascínio da Espiritualidade daquela Montanha está passando de geração em geração. Parece até mesmo um santo remédio holístico, porque nos ajuda a reequilibrar na corda bamba da arte do bom viver e conviver.

A espiritualidade da montanha na forma de Pedra Branca é um fascínio à parte que também tem inspirado o cotidiano de gerações. Se você quiser desfrutar por antecipação o restante da resposta ao velho repórter, curta sobre o Morro da Pedra  Branca, o documentário ELA: https://www.youtube.com/watch?v=jDDOLiK44nw


Jaci Rocha Gonçalves é Padre, Doutor em Teologia, Filósofo, estudou comunicação no Vaticano e é Professor da Unisul. 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Atrás da pedra eles celebram a luta pela terra: ministério da Justiça reconhece Terra Indígena Jaraguá

A reportagem é de Ligia Neves e Paula Forster, publicada por Brasil Post, 10-06-2015.

Na sexta-feira, dia 29 de maio, os índios guaranis da aldeia Tekoa Itakupe tiveram motivo para comemorar: depois da pressão popular, o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, assinou a Portaria Declaratória da Terra Indígena Jaraguá. Ele reconheceu a demarcação de terra realizada pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio) em abril de 2013. Uma área de 532 hectares, na região do Pico do Jaraguá, na zona oeste da cidade, foi reconhecida pela FUNAI neste período, mas até o momento, apenas 1,7 hectare havia sido demarcado.
Como tudo começou
Segundo o cacique Ari, sua família chegou à região do Jaraguá há 46 anos, na década de 1960, e fundou a AldeiaTekoa Ytu, em uma área de 1,7 hectare. A terra foi homologada pela FUNAI em 1987, época em que os guaranis já enfrentavam problemas decorrentes da urbanização. Então, na década de 1990, algumas famílias ocuparam uma área vizinha de 3,5 hectares, onde criaram a Aldeia Pyau (a região não era homologada). 
Ari viveu em aldeias do litoral paulista, aos 15 anos esteve no Jaraguá, foi cacique em Ubatuba e retornou à região nos anos 2000. Foi aí que começou a se preocupar com a falta de espaço em que viviam os membros das aldeias. "A comunidade começou a crescer muito. Começou a me dar a preocupação com as crianças e adolescentes, porque não tem espaço. A coisa importante do índio é a água. Nós tínhamos na parte de baixo o Ribeirão das Lavras, mas com esse tempo todo aí, o rio foi contaminado pelas construções de favelas e correu muito esgoto aberto", conta Ari. 
Além disso, em 2004, um grupo de universitários que visitou a aldeia alertou um cacique sobre uma possível ocupação da aquele território com um assentamento de terra. Então o cacique combinou com umas seis famílias e em um domingo do ano de 2005 ocuparam a terra. A aldeia foi batizada de Tekoa Itakupe. Entretanto, o advogado Tito Costareivindicou a posse de 72 hectares da área, alegando que o território pertencia à sua falecida esposa, Lea Nunes Costa. "O dono começou a entrar com processo e uns 40 dias depois recebi intimação para comparecer no Ministério Público. Lá fora, disseram que eram pessoas estranhas que tinham invadido a área, não falaram que eram índios. A gente teve que sair, porque estava no começo, a gente não tinha reconhecimento da área. Eles arrumaram um caminhão para levar as coisas", lembra o cacique Ari Augusto Martim. Foram seis meses de ocupação até os guaranis sofrerem com a reintegração de posse. 
Em 2013, mais precisamente no dia 30 de abril, o Diário Oficial da União comunicou o reconhecimento pela FUNAI da área de 532 hectares (região que compreende a aldeia YtuPyau e Itakupê) como limites constitucionais da Terra Indígena Jaraguá. Os guaranis retornaram à região em 2014. No entanto, a demarcação da terra dependia da assinatura do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo - até então, apenas a área de 1,7 hectare era homologada. Enquanto isso, os guaranis ainda sofriam a pressão da reintegração de posse comandada por Tito Costa e dependiam da decisão de Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), em aceitar ou adiar o pedido do advogado. 
Com a assinatura de Cardozo no último mês, o "Jaraguá é Guarani". 
Os índios são muito ligados à terra onde habitam. A terra é mais do que um lugar para morar: é sagrada. Segundo o cacique Ari essa foi a principal razão para que lutassem por Tekoa Itakupe. 
Mutirão para construção de novas moradias
Com o reconhecimento da FUNAI em 2013, o Cacique Ari iniciou um projeto. "Eu queria fazer uma aldeia modelo. Uma oca tradicional de madeira. Mas aqui não temos o material todo, como o cipó, então usaremos pregos e a cobertura de sapé", explica. "A gente vai fazer um grupo de seis casas com cozinha tradicional e uma área também para plantar, para já começar a alimentação direto da terra", conta Ari. 
Quem tem ajudado Ari na realização deste sonho são voluntários, que comparecem aos mutirões organizados por meio do Facebook. No dia 24 de maio, foi realizado o segundo deles, dia foi dedicado à construção da casa da donaGeni, filha do cacique. E mesmo em meio a tanto trabalho, não faltou disposição para Ari nos contar sobre a história, a cultura e situação atual da aldeia - que até a presente data esperava por uma reunião agendada no Ministério Público, confiando na possibilidade de adiamento da reintegração de posse. Em 2005, os guaranis perderam o processo para Tito Costa e retornaram para as Aldeias Ytu e Pyau. Em 2013, a FUNAI reconheceu a área como terra indígena, mas como ainda não tinham o reconhecimento do Ministério Público, o homem que se afirmava dono das terras ainda reivindicava parte do território.
A cultura que resiste
As crianças da aldeia são adoráveis e receptivas. Contam muitas histórias e até nos ensinam algumas palavras doidioma Guarani. Até os seis anos de idade elas aprendem somente tupi guarani e depois começam a estudar português.
Quando questionado sobre a importância de as crianças frequentarem as escolas, cacique Ari diz: "Antigamente a gente dizia assim 'valia mais a prática do que a gramática'. Mas hoje tem que valer as duas, porque o índio tem que procurar se defender", diz.
O papel da mídia
"De 170 milhões de brasileiros, apenas uma ínfima parcela teve algum tipo de contato direto com uma aldeia indígena, seu conhecimento sobre essas populações advém, portanto, não da experiência, mas se constrói através dos filtros da escola e, sobretudo, da mídia. Ela é o principal suporte pelo qual a grande maioria da sociedade nacional toma conhecimento e constrói opiniões sobre a população e questão indígenas".
O trecho acima foi retirado do artigo A Construção de um Réu-Payakã e os índios na Imprensa Brasileira publicado no livro Espelho Infiel. O texto é da mestra em Antropologia Social pela UFRJMaria José Alfaro Freire, e é produto da dissertação de mestrado defendido no Programa de Pós Graduação em Antropologia Social, em 2001. 
Maria José analisa um caso em particular: a cobertura da imprensa na acusação de estupro dirigido ao índio kayapóPaulinho Payakã. A autora escreve na introdução: "A escola, a produção intelectual, a mídia, a literatura, o cinema, o museu, as práticas do Estado, da Igreja, entre outros, constituem 'lugares' onde esses modos de conceber o 'índio' se constroem e circulam". 
A mídia tem o poder de criar representações e influenciar a opinião de quem a consome. No caso da aldeia Tekoa Itakupe, o Cacique revela boas impressões da mídia, mesmo sem ser questionado sobre o assunto: "A FUNAI é um órgão federal, mas não tem aquela força. Assim, como eu usei a mídia e as reportagens, eles tiverem que se mexer, senão ia queimar o filme deles né? Então isso foi muito bom para mim", afirma. 
A visibilidade que o assunto da reintegração de posse ganhou, graças ao papel mediador da imprensa e da repercussão das postagens nas redes sociais, em particular o Facebook, pressionou, de alguma forma, o adiamento da reintegração de posse (situação em que se encontrava o processo até o último domingo, dia 24 de maio). Ainda assim, há muito ase questionar sobre a forma pela qual a mídia retrataos povos indígenas: ora como povos primitivos ecanibais; ora como aproveitadores que se enriquecem 'invadindo' terras alheias; ora como 'não índios', porque possuem celulares. Há que se questionar muitas das informações que nos são 'jogadas' em todos os momentos.
Redes Sociais
Nos últimos anos, as redes sociais têm contribuído largamente no processo de disseminação de informações. Lembremos o caso da carta dos povos indígenas Guarani e Kaiowá à presidente Dilma Rousseff que ganhou repercussão pelo número de compartilhamentos no Facebook.
No caso dos povos indígenas do Jaraguá, as notícias da tentativa de reintegração de posse sofrida pela aldeia Tekoa Itakupe postadas no Facebook, contribuíram para que um número maior de pessoas soubesse do que estava para acontecer.
Podemos ilustrar nosso próprio caso como exemplo. Ficamos sabendo da causa por meio de uma postagem de um amigo em comum. Depois de estabelecermos contato com a pessoa, todo o processo para conhecer mais sobre a tentativa de reintegração de posse, sobre o mutirão que seria organizado no domingo e sobre como chegaríamos até Tekoa Itakupe foi feito através do Facebook, por meio de grupos e eventos. Inclusive após a visita à aldeia, continuamos acompanhando as notícias pelo grupo SOS Aldeia ItakupeSol Nascente, e soubemos da notícia de que o Cardozo havia assinado a demarcação da terra por ele.
Link da matéria: http://migre.me/qeWHm

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Nota de repúdio contra as ameaças à Cacica Eunice Antunes da Terra indígena Morro dos Cavalos

Fonte da notícia: Cimi Regional Sul
Osmarina de Oliveira

Cacique Eunice na 10º Semana Cultural Tekoá Itaty
Fonte: FanPage Fotografia Gurani - Morro dos Cavalos
A cacica Kerexu Yxapyry (Eunice Antunes), da Terra Indígena (TI) Morro dos Cavalos, município de Palhoça/SC, vem sofrendo graves ameaças contra sua integridade física, sua família e comunidade devido ao seu posicionamento firme na luta pela regularização da TI. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) - Regional Sul quer tornar públicas essas ameaças e solicitar providências por parte das autoridades competentes.
Desde o início de 2015, as ameaças de morte e perseguição a cacica retomaram com grande intensidade. Kerexu relatou que nos últimos dias indivíduos não identificados vêm constantemente invadindo a Terra Indígena e monitorando a movimentação em sua casa. As ações acontecem por pessoas em motocicleta, que chegam de madrugada e fazem ronda. Em uma dessas vezes, o disjuntor de energia que abastece sua casa caiu e o medidor de energia explodiu, deixando os moradores às escuras. Em outra ação, os estranhos seguiram Eunice. Ontem, 31 de maio, o tio da cacica foi abordado por sete jovens que novamente mandaram o recado com ameaças para cacica.
Como das outras vezes que ocorreram as ameaças, elas foram precedidas de ataques difamatórios de parte da imprensa catarinense com o claro intuito de colocar a população contra os indígenas. Em 2014, o jornal Diário Catarinense, filiado ao grupo RBS, ligado à Rede Globo, publicou uma reportagem em cinco partes que destilava preconceitos contra a comunidade indígena e questionava a regularização da TI. O referido jornal, constantemente veicula matérias em que os Guarani aparecem como entrave ao desenvolvimento do Estado, principalmente no que se refere à construção de pistas adicionais na BR-101, que corta a TI Morro dos Cavalos.
Nos últimos dias, foi publicada uma entrevista com um deputado federal e diversas matérias associando a TI Morro dos Cavalos com decisão judicial de outra Terra Indígena, todas contrárias aos Guarani. Não é de hoje que a comunidade indígena vem denunciando a violência contra os membros da comunidade e, principalmente, contra a cacica Eunice.
Em 2013, o Cimi Sul protocolou documento junto à Secretaria Nacional de Direitos Humanos (veja aqui), denunciando as violências contra os Guarani em Santa Catarina e, especificamente, as ameaças de morte e agressões contra a comunidade indígena Morro dos Cavalos. Na época, a cacica havia recebido telefonemas anônimos com ameaça de morte e de queima da casa dela e de outros professores indígenas.
Nos anos de 2013 e 2014, a comunidade indígena sofreu quatro ataques ao seu patrimônio por meio do corte criminoso das tubulações de água que abastecem as famílias, deixando-as sem água.
Diante da falta de providência das autoridades competentes, a cacica decidiu tornar públicas as denúncias, manifestando que “em meio ao turbilhão de ataques e ameaças que estamos vivendo agora, não seria justo ficarmos calados sabendo que temos toda uma memória para mostrar. Temos que nos fazer valer de todas as ferramentas que os não indígenas criaram em nossa própria defesa, pois é assim que eles tentam nos destruir: tirando tudo o que foi nosso um dia e nos intimidando para nos calar”, denunciou a cacica Eunice.
O Cimi Sul acredita que, para pôr fim a essa violência, é necessário e urgente a homologação da Terra Indígena por parte da presidente Dilma Rousseff, para que possa se concluir a indenização justa aos ocupantes não indígenas e a comunidade possa usufruir livremente da terra de seus antepassados.