terça-feira, 25 de agosto de 2015

Cara Nova. Velhas Sonhos.

Cara Nova. Velhas Sonhos.




Essa capa traz uma cara nova para o Revitalizando Culturas, estou feliz e agradeço a nova equipe de estagiários, Natalia Santos de Pinho, Rafaela Iwassaki e Danilo Garcia. Como as equipes anteriores, essa também mostra sua criatividade, boa vontade e solidariedade.

A capa tem o rosto de Juquinha uma menina que acolhemos na Orionópolis, do documentário Cores, a ser lançado pelos alunos de cinema da Unisul. Juquinha representa no Revitalizando as pessoas com deficiência.

No centro da capa está a foto com Eduardo, o jovem cacique guarani da aldeia Marangatu de Imaruí. Ele faleceu recentemente num acidente três meses antes de sua formatura universitária. Deusila é a jovem mãe negra e líder haitiana. Representa os novos imigrantes.

É assim: o Revitalizando trabalha com pessoas ditas invisíveis ou esquecidas, mas como protagonistas, se enfeitando assim pro novo alvorecer da vida. O sol está aqui porque é a fonte da vida, desde o guarani que quer dizer filho do sol.

O sol ilumina a Késia, boneca ganhadora do prêmio do último UniDiversidade e Lixo Zero aqui na Unisul Pedra Branca. Ela é um símbolo, toda feita com reciclados, que traz no seu coração escrito em teclas de computador “Ethos”, que quer dizer “Nosso jeito de ser mais profundo”.

Portanto, esta capa reúne nossos sonhos de revitalizar as culturas, todas as culturas na sua rica diversidade. Obrigado à vocês que são da nossa equipe e obrigado à você que sempre vem aqui frequentar o nosso blog.



Jaci Rocha Gonçalves

Coordenador do Revitalizando Culturas

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Pedra Branca e a Espiritualidade da Montanha IV

Artigo publicado no Jornal Cotidiano Pedra Branca


O xamã guarani enterrado na outra montanha
Espiritualidade da Montanha (IV)

Peço licença ao velho repórter morador da Cidade Universitária  Pedra Branca para pautar o que vivi na Montanha dos Ancestrais guarani, o conhecido Morro dos Cavalos. Foi na sexta-feira, 7 de agosto de 2015, bem cedinho. A pedagoga, diretora da Escola indígena Itaty, também moradora da Pedra Branca, com surpresa e muito pesar, me avisa que o seu Adão Karaí Tataendy Antunes falecera por volta das três da madrugada na aldeia.

Apesar da jovem idade de 58 anos, o professor Adão era considerado um sábio, um xamã. A última vez que pude vê-lo foi na UTI, já desenganado na luta contra um carcinoma que lhe havia tomado 70% da hipófise e deixado cego nos últimos dois anos após longa via-sacra para viabilizar a cirurgia.

Eram altas horas, mas a plantonista me permitiu rezar na UTI. Cantarolei várias vezes um mantra em guarani. A força espiritual e solidária de seu povo o trouxe de volta para viver seus últimos dias na aldeia - na casa que se tornou Centro de Encontros locais e nacionais na terra devolvida em agosto de 2014. Ali resolveu morar. Diante do perigo de possíveis agressões, ele dizia: “deixem-me viver aqui, porque tenho pouco a perder já que estou doente e cego; mas tenho muito a defender para o bem de nosso povo”.

O corpo do professor, autor do famoso Palavras do Xeramõi (velho sábio),  e muitas vezes cacique guarani, foi levado para a OPY (Casa de reza) a um quarto da distância pela picada que leva ao topo do Morro dos Ancestrais (Morro dos Cavalos). Dessa vez, desobedeci ao médico e subi sozinho a montanha na noite, degrau por degrau, e lá fiquei rezando até a madrugada.

Toda vigília e funeral sempre emociona, e tive a graça de ritualizar milhares. Mas confesso que em 40 anos de padre e 25 com esse povo, nunca vivenciei um rito tão longo e com sentidos tão profundos para cada detalhe. Semelhante a este, só nos funerais cristãos da Ilha do Sal, em Cabo Verde, na África.

Ao meu lado, o cantador jovem me explicou que não se cansavam ao tocar e cantar por tanto tempo porque “a gente sente Nhanderu (Deus) gostando de nos ouvir e não vemos o tempo passar!”. O rito final foi sábado pela manhã, concluído às 14h com o velho xamã acolhido no ventre da mãe terra na Montanha dos Ancestrais.

No Facebook de sua filha cacique escrevi: “Amigo, você deixa saudades boas em toda a Unisul e região. Memória de sábio multicultural. Verdadeiro mbyá! Volta pro colo de Nhanderu Tupã e Nhandercy! Você continua entre nós como palavra viva de serena firmeza, nascida do silêncio da fumaça do Petynguá. Dança com os xeramõi, os xondario e xondaria na Yvy Marae-y (Terra Sem Males).

Foi enfeitado por folhas de bananeiras, flores silvestres, onde será plantada uma Jussara, palmeira que garante a memória dos ancestrais como a que ele plantou nos jardins da Unisul Pedra Branca com nosso diretor em homenagem a outro amigo, grande antropólogo. Obrigado, Nhanderu (Deus), pela graça de conviver com Adão Karaí Tataendy Antunes.


LEGENDA: Professor Adão com o Diretor de Campus da Unisul, platando uma palmeira de nome Jussara.. 

Jaci Rocha Gonçalves é Padre, Doutor em Teologia, Filósofo, estudou comunicação no Vaticano e é professor da Unisul. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Bienvenu, Sofia!

Bienvenu, Sofia!
Unisul e a cultura haitiana

Há dois sábados, em uma manhã de sol que se tornou ainda mais especial e radiante nasceu a ultra esperada neném Sofia. Todos na Unisul Pedra Branca aguardavam ansiosamente a sua chegada. Muito antes de nascer já havia sido batizada com um nome muito especial: Sofia, do grego sabedoria. Nome forte, focada na ética do conhecimento, quando, sobre este, fazemos a pergunta grafitada nas paredes do corredor central do andar térreo do Bloco B: “Conhecimento para quê e para quem?”.

Sofia Laila Fils é a neném filha da Senhora Germine Jean Baptiste e de Frederico Fils. Germine é uma trabalhadora haitiana na empresa terceirizada responsável pelos serviços de limpeza do campus. Mamãe corajosa. Durante a gestação passou por grandes sustos: desmaios constantes, a queda na escada, o atraso de 20 dias do prazo para o parto. O maior susto foi quando sua cunhada após medicada em um hospital e encaminhada para casa perdeu a criança que estava esperando. Apesar de apavorada, Germine manteve sua fé e a cada dia a vontade de ver o rostinho de sua filha só aumentava.

Boa vontade não faltou em todos os setores da Unisul, alunos, docentes e colaboradores, das colegas de trabalho, dos amigos e do Centro de Obstetrícia do Hospital. Todos acompanharam Sofia e sua mãe com “marcação cerrada”. Após as 41 semanas de gestação ela voltou ao hospital para ficar. Acolhida por uma médica de nome Natália e que falava o francês. Tivemos a graça de ouvir a médica ao telefone garantindo sua internação.

É uma linda epopéia de uma vida irrepetível como a de cada um de nós. Vida irrepetível até às intimidades do DNA. Dá até vontade de escrever um poema:

Bem-vinda, Sofia!
Concebida no Haiti,
Assustando na gravidez distante no Brasil
Você nasce com um nome misto:
Sabor Haiti, sabor Brasil, sabor de sabedoria.
Carência de lá, de cá e de todo lugar.
Você vem, bem negra, no segundo país mais negro do mundo.
Vem com essa negritude sem embrancamentos, filhos das escravaturas.
Vem prá terra catarina da médica Zilda Arns.
Aquela que morreu no terremoto do Haiti
Enquanto trocava sabedorias de sua Pastoral da Criança
No cuidado com crianças, assim: espertinhas como você!
Bienvenu, Sofia!



A brasileirinha Sofia Laila Fils e Germine, sua mãe haitiana.


Estagiárias:
Natalia Santos de Pinho
Rafaela Iwassaki

Jaci Rocha Gonçalves
Coordenador do Revitalizando Culturas/Unisul.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Pedra Branca e a Espiritualidade da Montanha III

Artigo publicado no Jornal Cotidiano Pedra Branca 


A esfinge do Cristo na Pedra Branca.
Espiritualidade da Montanha (III)

O faro jornalístico de curiosidade do repórter sexagenário sobre minha relação com a Montanha Sagrada da Pedra Branca aflorou de vez quando lembrou a pauta da face de Cristo estampada no frontal da pedra do morro.

A essas alturas, a mídia escrita e televisiva já transformara a Missa da Primavera em notícia regional. Chegou a reunir 2.500 pessoas e rendeu até capa nos maiores jornais do estado, como se vê no documentário. Porque o morro da Pedra Branca exerce fascínio e seduz os olhares de todo o seu entorno. É um ponto ótico charmoso que atrai olhares de todas as janelas de prédios, casas, ônibus e na rota de aterrissagem dos aviões. A Pedra Branca invade todas as retinas que se movem na Ilha quando de costas para o Atlântico.

É um ponto ótico ideal para uma grande imagem religiosa. Os mais velhos contavam-me que também nessa montanha um frei rezava missa na década de 40 pedindo pelo fim da segunda guerra mundial, como no Morro do Anhangava do Paraná. Como em 1987 lembrávamos os dois mil anos de nascimento de Nossa Senhora, a mãe de Jesus espalhou-se a ideia de homenageá-la com sua imagem no alto da Pedra Branca ou de seu filho cujas as festividades estavam às portas. Havia também alguns  políticos com esquema pronto para colocar uma imagem do Cristo Redentor lá encima já que a região não tinha seu Cristo na montanha, apenas a cruz no Morro da Cruz.

Num daqueles dias fui rezar uma missa aos pés da pedra branca, em um escritório com muitos trabalhadores. Ao final, eles me presentearam com uma foto curiosa tirada de sua janela de trabalho em que se via nitidamente a esfinge do Cristo Redentor da Pedra Branca. Aparecia o rosto de Cristo no frontal da pedra. Faz uns 15 anos que fixei a foto na minha sala do Revitalizando Culturas com a legenda: a esfinge do Cristo na Pedra Branca. No ano 2000,  ela foi capa do jornal laboratório de focas de jornalismo do Curso de Comunicação Social da Unisul do campus da Pedra Branca.

Mostrei, então, a foto ao povo numa Missa da Primavera no final da década de 80. Meditamos, pensando que, de repente, a gente não precisava levar o Cristo lá pra cima, porque sua imagem já estava esculpida no frontal da própria montanha.  Não seria um convite a preservar a natureza em seu modo natural de ser? E pensar que o papa Francisco ainda não tinha escrito a sua encíclica ousada Laudato sii (Louvado sejas) sobre o cuidado da Casa Comum como direito de todos ao exercício de proteção ambiental.

Porque a montanha também tem sua história, autonomia e missão. Ela é uma mensagem a ser decodificada. Na ocasião, os projetos de teleférico, urbanização e trilhas de MotoCross começaram a ser questionados pela comunidade soando como ruídos contra a ternura da Pedra mantida por milênios como um santuário natural. Aí o repórter me disse que os cientistas provam a existência da Pedra Branca em mais de 120 mil anos, incluindo todo o histórico de regressão marinha.

Ao redigir essas linhas fitei o Cristo da Pedra Branca. Perguntei a Ele se também andava preocupado com as formas de construção do Anel Viário, com o descuido das famílias atingidas e a preocupação com as nascentes. O que achava dos mais de 10 rios afogados pela voracidade imobiliária entre o Rio Maruim e o Cubatão. Aí eu já me peguei chorando como velho sonhador que recebera o título de cidadão palhocense ainda na década de noventa. Eu lhe pedi, por fim, a graça de refazer nossos olhares de cidadania ativa no seu olhar de rezador e de messias crucificado na montanha. E que nas planícies insistíssemos na arte de amar como Ele amou.

Jaci Rocha Gonçalves é Padre, Doutor em Teologia, Filósofo, estudou comunicação no Vaticano e é professor da Unisul.