terça-feira, 22 de setembro de 2015

Quando você ouve o Invisível?

Quando você ouve o Invisível?

Escrito por: Jaci Rocha Gonçalves

Acompanhado de outro sexagenário jornalista, do meu filho mais velho e do amigo Danilo, amanheci na Orionópolis Catarinense, uma conhecida vila que abriga moradores com plurideficiência e em estado de abandono. Abrindo o portão estava o Tico, já cinqüentão, a nos acolher. Ele foi um dos primeiros moradores, oriundo do Saco dos Limões, em 1991. A Orionópolis fica às margens da embocadura do rio Maruim, do lado de São José, na divisa com Palhoça.

Meu coração estava disparado. Era sábado, dia 5 de setembro de 2015. Fui convidado a palestrar no ENAJO – Encontro Nacional da Juventude Orionita. No grande pátio, entre os jardins, vários ônibus que chegavam desde a aurora. O coordenador do ENAJO, antes de me dar bom dia, já foi desabafando:  “Estou impressionado com a espiritualidade dessa juventude. Ao longo da viagem, desde o interior paulista até aqui, achavam jeito de rezar de mil maneiras, maninho!”

Olhei, então, para a Pedra Branca à minha frente e o Cristo da Esfinge me piscou, assim como fizera tantíssimas vezes desde o início dos mutirões para construir aqueles lares e acolher quase duas centenas de moradores descartados pela sociedade. No salão, uma banda animada ditava o ritmo para os jovens dos 15 aos 23 anos, com a pilha toda.

O papo se inspirou em  São Luís Orione (daí o nome Orionópolis), dando dicas para o tema FORTES NO AMOR. Seguimos o roteiro do longametragem Algo de Dom Orione, prêmio do cinema italiano em 1990, o qual recuperamos na Unisul. O cineasta Ermano Olmi revê a vida do santo focando seu exílio na Argentina dos 64 aos 67 anos e seu regresso à Itália, onde morreu em 1940, aos 68 anos. 

A primeira dica foi a determinação do santo ainda adolescente de cultivar o AMOR FONTAL. Sobre esse tema, um dos jovens participantes me mandou esse e-mail, após o encontro.

“Qual é a fonte do amor? Pela revelação cristã, Deus não só ama, mas Ele é amor (I Jo 4, 8). Há diferença entre amar e ser amor. E para haver amor há necessidade de relação: o Pai que ama e se doa eternamente ao Filho Jesus; e o Filho Jesus que ama e se doa eternamente ao Pai. Dessa relação de entrega do Pai e do Filho brota o Espírito Santo, Senhor da Vida! Portanto, Deus revela seu mistério e identidade como uma eterna comunhão de amor! E nós, também fomos criados à ‘imagem e semelhança’ (Gn 1, 27) deste Deus que é comunhão de amor. Então, somos criados como um derramamento de amor e para a comunhão de Amor! O céu é participarmos dessa comunhão eterna de Amor. E já começa aqui e agora, no relacionamento com os meus irmãos. Por isso Jesus nos diz: ‘Que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei!’ (Jo 15, 12). O amor é uma escolha que, inspirado no amor de Deus, vai além das limitações da concupiscência (tendência ao pecado, ao egoísmo) e nos permite encontrar aquilo que há de mais sagrado em nós. Pela oração acesso sempre o Amor Fontal”.

Não acreditei no que li. Como o Sant’Orione, o garoto também se posiciona como  alguém de FÉ que se dá o direito de viver como se visse o invisível. Ele se dá tempo suficiente e hábito de viver, ouvindo seu Deus em meio a toda a parafernália eletrônica.

Vale a pergunta: Quanto tempo e quando cada um de nós ouve  e se entretém com o Invisível? Desde garoto, Orione quer se doutorar na ciência do amor ao próximo. E não vai só. Reúne a turma do outro lado do rio da cidade de Tortona, o bairro dos pobres, dos comunistas, dos que não contavam e eram vistos como perigosos. E a terceira dica do santo no filme é a vivência da virtude da ESPERANÇA. Orione desafia desafios, inventando sempre saídas criativas. 

O caos para ele é fértil. Enquanto o navio se afastava do cais do porto italiano de Gênova para levá-lo ao exílio na América Latina, escreve esse bilhete:“Hoje tenho uma vontade enorme de dançar: - haverá dança no Paraíso?Sabemos que existe música, deve existir dança também: eu quero cantar sempre e dançar sempre. Se preciso, Nosso Senhor me dará uma sala especial para não perturbar muito os contemplativos. Estou feliz porque no Paraíso haverá sempre festa: e, nas festas, existe sempre alegria, cantos, danças, em Deus... Eu quero manter todos alegres: cantar e dançar sempre. Que me conheçam como o santo das danças, das canções e da alegria em Deus”.

É claro que nossa oração final foi dançando o refrão do samba: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz, ai Meu Deus! Eu sei...



*O DVD com o filme “Algo Sobre Dom Orione”, pode ser adquirido no Revitalizando Culturas (Unisul Pedra Branca) ou na Orionópolis Catarinense.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Espiritualidade da Montanha V: O santo vício dos povos



Espiritualidade da Montanha V:
O santo vício dos povos

Escrito por: Jaci Rocha Gonçalves

A penúltima pergunta do sexagenário aprendiz de repórter sobre nossas missas de Primavera na Pedra Branca é se existem relatos de que os índios, em determinado tempo, procuravam sempre os morros altos, como nós temos aqui o Cambirela, a Pedra Branca. “Isso é algo da cultura deles?” Eu lhe respondo no documentário ELA que esse viés é papo para “varar” a noite jogando conversa fora.


Na verdade, parece que a riqueza de relatos sobre os montes sagrados ocupa lugar de destaque entre os povos originários de cada canto de  nosso planeta. Monte sagrado é um bom verbete para guglar e fazer seu inventário entre os povos. Talvez se conclua com a pergunta: Será que algum povo vive sem o santo vício de uma montanha sagrada?

Uma aluna curiosa de naturologia da Unisul me contava que guglou sobre o monte sagrado da Austrália que voltou a ser chamado pelo nome aborígene só a partir dos anos 80 e o povo Anangu voltou a ser seu guardião. É isso mesmo: no Extremo Oriente, os japoneses têm um xodó pelo Monte Fuji; na Ásia, o Monte Kailash é fonte de seus maiores rios e é sagrado para quatro religiões: hindus, budistas, jainistas e os tibetanos indígenas de Bön.

No Oriente Médio, os montes sagrados do Sinai, Garizin na Samaria, o Moriah de Jerusalém e o mais famoso para os cristãos: o Monte Calvário, são alguns de centenas que inspiram a tradição judaico-cristã e o islã. Os gregos têm o Olimpo e Roma as sete colinas sagradas. Esse fascínio hereditário dos povos por se inspirar e refazer na espiritualidade da montanha veio de além mar pelos nossos pedagogos açorianos, alemães, italianos, franceses, espanhóis e árabes.

Desde menino já cantávamos: “Subiremos montanhas sagradas, colinas suaves do amor cristão!”,ou, com Roberto Carlos: “Eu vou subir a montanha e ficar bem mais perto de Deus e rezar; vou pedir que as estrelas não parem de brilhar, que as crianças não deixem de sorrir e que os homens jamais se esqueçam de agradecer!

Os nossos povos da Ameríndia, do Alaska à Terra do Fogo, passando pelas pirâmides maio-astecas, pelos mestres espirituais dos povos andinos do Alto Peru e esse baixo andino amazônico onde vivemos,  também buscavam sentidos para bem viver e conviver. Cerca de 900 povos se alimentavam da espiritualidade em seus montes sagrados.

Desde 1999, alguns alunos da Unisul tiveram um cicerone Guarani para escalar o Morro dos Ancestrais, o Morro dos Cavalos. Desde 2002, tive a graça de ver vários Karaí acompanharem jovens aqui da Universidade em Casas de Reza aos pés da Pedra Branca. Os velhos xamãs testemunham que também aqui na montanha, os seus ancestrais vinham se encontrar com Deus.

Quanto ao Cambirela, os Guaranis explicaram num dos livros didáticos que significa “seios mamados; seios de mãe”. É uma espécie de reconhecimento no próprio nome da força vital que a montanha exerce sobre os povos. Saúde plena, integradora do ser, força holística.

Se você tiver a graça de escalar a Pedra Branca nesta Primavera de 2015, com o apoio do Marquinhos, cicerone conhecido na Unisul, chegando ao topo, reze esses versos por mim, já que meus joelhos me impedem de chegar lá:

Criador dos montes, onde geras as nascentes de tantas cachoeiras e rios, ensina-nos a exigir respeito, cuidado e veneração por este e outros lugares sagrados. Agora que as máquinas poderosas do Anel Viário estão chegando, ajuda-nos a impedir mortes desnecessárias de nascentes afogadas, matas e animais destruídos e, sobretudo, de moradores antigos e indefesos. Que saibamos manter este santo vício dos povos: a espiritualidade da montanha que clama vida para todos e tudo.

Jaci Rocha Gonçalves é Padre, Doutor em Teologia,Filósofo, estudou comunicação no Vaticano e é Professor da Unisul.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Venha assistir à palestra do professor doutor Jaci Rocha Gonçalves. Ele foca a necessidade de sintonia do humano com seu ethos cultural para uma saúde holística, conforme os princípios de Naturologia.

DATA: 11/09
HORÁRIO: 11:30
LOCAL:AUDITÓRIO G

Vale como horas AACAs.


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Semeadura



Semeadura
Aportes filosóficos sobre a direção de Cleuza Soares
Jaci Rocha Gonçalves, Dr*
Em tempo de África do Sul ainda sob os olhos do mundo, acho oportuno lembrar de Semeadura. Trata da questão das quotas para cidadãos de escolas públicas, negros e índios. É o documentário conclusivo de Cleuza Soares no Curso de Cinema e Audiovisual da Unisul, Pedra Branca em Palhoça/SC e selecionado para o Festival de Cinema da Cufa no Rio de Janeiro. Soares é graduada em filosofia, mestranda em Teoria Literária pela UFSC e mulher negra.  Repasso aqui algumas observações que fiz no debate sobre Semeadura tanto na UNISUL quanto na UFSC.

Antes de tudo, observa-se uma coerência entre a fundamentação - inspirada em Martin Buber, Maurice Merleau-Ponty, Paul Ricoeur  e caberia muito bem Emanuel Lévinas, em que a diretora elege a relação dialógica, de respeito à subjetividade dos entrevistados/atores e de sua equipe e a práxis apresentada na obra estética Semeadura. Pode-se reconhecer esta coerência (1) no frisson e naturalidade dos atores/atrizes já que são pessoas não habituadas ao set e à tecnologia que ainda se impõe com as roupagens do Mito do Meio, para lembrar o velho MacLuhan. Ao mesmo tempo, (2) a coerência se apresenta na finesse, da sintonia fina da equipe de produção – Allan César, Luís Lima, André, Fahya Kury e Mara Salla, observável nas imagens de primeiríssimo plano, valorizando os detalhes e nuances dos sujeitos.

Outro aspecto é a coragem ética de Cleuza Soares quando opta conscientemente pela Negação da Negação da subjetividade de seu povo negro. Aqui a diretora nos aproxima de interlocutores como  Enrique Dussel enquanto filósofo da libertação e do inesquecível antropólogo Darcy Ribeiro. Ambos e,  Darcy no recentíssimo trabalho da cineasta Isa Grispum sobre uma das obras do antropólogo Povo Brasileiro quando diz, como em testamento, no último dos 10 vídeos sob o título A Invenção do Brasil: “é preciso negar a negação”. E vale salientar que a diretora de Semeadura tem uma identidade duplamente negada como cineasta e filósofa mulher e mulher negra, bem como, aquela que reside no anti-lugar que é o Morro.

Esta coragem ética se aprofunda quando o assunto é política não apenas de negação mas de afirmações. Ela opta pela difícil escolha de fazer este documentário Semeadura como um exercício de democracia com a visão de Mário Quintana, ou seja, “dar a todos o mesmo ponto de partida”. Esta opção de Cleuza feita logo em sua primeira obra, mostra a que ethos, quero dizer com Aristóteles à brasileira,  a que jeito-de-ser  pessoa, cineasta e profissional ela veio. Fica claro em sua obra quais serão os focos de sua lente, em que locus  vai levar seus sets  e quais temas serão privilegiados em seu portfólio.

No cultivo deste ethos a cineasta negra segue a trilha de outras mulheres como Tetê Morais de Terra para Rose e de Isa Grispum já lembrada acima. Mas também de outros homens lembrados em seu roteiro de trabalho como Joel Zito de Negação do Brasil e Eu sou neguinho, aquele que soube afirmar na hora kairológica “neste momento histórico só me interessa afirmar o que fui pressionado a negar!”.

Por estes aportes, deixo duas conclusões e uma sugestão. (1) Seu documentário Semeadura não se destine às prateleiras – ele chegue aonde o povo está, como canta o poeta negro Milton Nascimento, de sua saudosa terra natal, as Minas Gerais. (2) Jamais vou esquecer o momento de Semeadura em que a filósofa Sônia Felipe é transformada em atriz. Inicialmente Sônia mostra seu jeito cartesiano de análise com idéias claras e distintas; depois, vai aos poucos se emocionando até o momento ápice do documentário quando tem um “nó na garganta”. É a este framer  quando a filósofa/atriz passa da lógica da razão para as razões do coração que você une mais uma vez sua sutileza com a precisão de cineasta escolhendo-o como desfecho estético de Semeadura. (3) No entanto, para seguir abraçando as ancestralidades africanas, sugiro que ao documentário você dê o direito de usufruir melhor da dança, como nascituro em placenta de mãe.

Assim, Cleuza Soares, a filósofa negra, estaria de bem com o silogismo estético da Mama África proposto pelo filósofo africano Eboussi Boulaga em sua obra La crisi Du Muntu. Boulaga propõe que o pensar e o sentir sejam tidos como importantes  desde que não esqueçam do dançar, como ensinavam os ancestrais. E parafraseia Déscartes e Blaise Pascal: Je dance, donc, je vis! Danço, então, vivo! Assim, sugiro que Semeadura possa ficar imersa na estética vital do dançar.


[*] É professor de Ética na Comunicação e Antropologia Cultural.
É Coordenador do Programa e Núcleo de
Pesquisas Revitalizando Culturas
Na Unisul/ Universidade do Sul de SC.
Texto apresentado no debate da UFSC e UNISUL.