sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Vitor kaingang vive em nós?

Espiritualidades no timing da vida.
Escrito por: Jaci Rocha Gonçalves


Car@ leitor@. Feliz 2016! Sob o velho desafio de exercitar a espiritualidade biocrática, quero dizer, de quem se deixa governar (kratós) pelo valor da vida (bios) para todos e tudo. Como bem explica o samba O que é?, de Gonzaguinha, dos tempos difíceis das ditaduras latinoamericanas. Ensopado de espiritualidade biocrática, o refrão sugere-nos o desafio de revitalizar em nós o perfil  da “beleza de ser um eterno aprendiz, ai, meu Deus! Eu sei, que a vida devia ser bem melhor e será; mas isto não impede que eu decida: é bonita, é bonita e é bonita!”

É, pois, um perfil de postura biocrática e de teimosia antiga.  Basta lembrar o ditado latino mors tua, vita mea! (Tua morte, vida em mim!) reconhecendo que a morte do outro gera e sustenta minha vida. Incluem-se aí desde os vegetais e animais como alimento em nossa mesa até o gesto de Deus cujo martírio em Cristo possibilita nossa ressurreição diária. 

Em 2015 reagimos aos contextos de violência sobre os humanos e a mãe terra exercitando essa mesma arte milenar de ser cuidador/a da vida  de todos e de tudo. Em nosso contexto mundial de 2016, as barbáries continuam numerosas e crônicas desafiando nossa indignação de cuidadores/as, sobretudo quando ferem crianças inocentes.

Dia 30 deste janeiro de 2016 faz um mês do infanticídio de Vitor Kaingang, 2 anos de idade, sob aquela árvore junto à rodoviária de Imbituba (SC). Foi degolado impiedosamente pela faca afiada nas mãos assassinas do jovem que usara um contexto de carícia traiçoeira, tirando-lhe a chance de viver e conviver com seu povo originário kaingang, na aldeia Condá em Chapecó/SC.

No sétimo dia do assassinato de Vitor, também morreu por fome o menino Jadson Guarani enterrado na aldeia Kurussu Ambá, no Mato Grosso do Sul. Desde 2007, cinco crianças morreram nessa aldeia por desnutrição. O mais velho tinha 5 anos. De acordo com a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), a falta de alimentação matou quase 600 crianças indígenas nos últimos dez anos. Nas estatísticas, metade da mortalidade infantil no país é ocupada por índios, mesmo que eles representem apenas 0,4% da população.  

O infanticídio de Vitor Kaingang coincidiu com o contexto da festa religiosa dos Santos Inocentes também passados ao fio da espada de Herodes caçando o Neném Jesus ameaçador de seus planos políticos. Furioso com a quebra do acordo diplomático dos Santos Reis que voltaram para os seus povos por outro caminho diferente do combinado.

Toda vez que conseguimos olhar fundo nos olhos das pessoas, sobretudo mais indefesas, como crianças e velhos, somos movidos a dançar o difícil samba da biocracia. É a espiritualidade dando-nos a dica para um cotidiano eficaz em 2016. E o luto do menino Vitor e de milhões de crianças inocentes não terá sido estéril.

Essa foi a repercussão em Curitiba da morte de Vitor Kaingang. Os povos originários mostram fôlego renovado, biocrático na luta por seus direitos nesse chão que já foi deles.