quarta-feira, 25 de maio de 2016

Pátio dos Gentios: Crise, ética e coisa e tal

Leonardo Santos*

Na última terça feira, dia 17 de maio, no espaço batizado de “Pátio dos Gentios” em Tubarão no Campus Sul da Universidade do Sul de Santa Catarina, aconteceu o debate “Reflexões éticas para tempos de crise”. A Sala Multimídia da biblioteca reuniu estudantes, professores, membros da Pastoral Universitária, representantes da diocese e outros. Sala pequena, mas com muita representatividade. Na mesa, o expositor foi Jaci Rocha Gonçalves, padre casado, teólogo e professor da Unisul e debatedor, o filósofo e professor Flávio Hobold; o professor Vilson Leonel  foi moderador e padre Eduardo Rocha, coordenador geral.

Jaci foi tomado por uma nostalgia, de volta à beira do rio Tubarão, seu local de nascença. Admirado com a iniciativa do Pátio dos Gentios, elogiou os idealizadores e lembrou-lhes de seus dois últimos livros para a UnisulVirtual feitos em parceria com o prof Roberto Iunskoviski que trata sobre o sagrado e as filosofias. Nas obras, eles dão destaque para esses espaços de encontro, de intelectuais de correntes diversificadas, tanto religiosas e políticas, quanto ideológicas. Na mesma roda se reúnem ateus e teístas, pensadores seculares e crentes perguntando por um objetivo ético comum. Citando Millôr Fernandes, lembrou que “perguntar dói” e, por isso, o incômodo questionamento da ciência ética: “para quê? Para quem?”.

O segundo desdobramento da noite foi sobre a palavra “crise”. Jaci explicou que a raiz filológica da palavra crise está no verbo grego krinein  e que significa passar pelo crivo, pela peneira, pelo crisol. Comparou, então, com a química em que acrisolar é extrair de um metal a sua preciosidade, através da purificação no fogo. No entanto, pediu atenção para a dualidade de sentidos do verbo krinein que, se de um lado gera crise, de outro, gerou para nós o verbo criar e o substantivo criatividade. Portanto, o conceito de ética não é só de passar no crivo e perguntar pelas finalidades, mas como um outro lado da mesma moeda, aponta para a necessidade da criação, busca de saídas, fissuras e possibilidades, em vista dos valores e da qualidade de vida para todos.

A essa altura, o professor traz o conceito de ética proposto pelo sociólogo Zygmunt Baumann no mundo líquido da pós-modernidade. É preciso que se admita que o chão da ética ou do território da ética é a aporética, ou seja, a conflitividade inerente ao cosmos e ao mundo humano. Há que se educar para viver e conviver no conflito, sem perder a graça. Esse território movediço da conflitividade deixa espaços pequenos entre o momento da crítica e da criação; de tão pequeno,  às vezes, é difícil de ser percebido. Mas assim é o modo de ser do humano e do universo. Tudo que gera vida e regenera vida está imerso num dinamismo permanente.

É nessa conflitividade que a ciência da ética faz sua pergunta sobre os três ethos do humano: o Homo oeconomicus, o Homo politicus e o homo aesteticus. A satisfação destas três áreas chaves no cuidado da vida pertencem às ciências da economia, da política e da estética. A falência de uma delas significa tragédia para o ethos do humano. De fato, se a economia falhar na produção e, especialmente, na distribuição dos bens e serviços: o humano morre de fome. Se a ciência da política fracassar, a morte ocorre por solidão. Se a estética fracassar na construção de sentidos através dos espaços de construção de sentidos nas igrejas, nas artes, na própria ética, morre-se por vazio interior.

No diálogo o debatedor, o filósofo Flávio Hobold confirmou ser o chão da ética um caminho difícil de trilhar porque trata do cultivo de valores, por isso testemunhou que trabalha o direito à reflexão ética desde o ensino fundamental. O professor Jaci concluiu descrevendo o humano saudável eticamente como aquele que se dá o direito de ser crítico-criativo, justo e misericordioso. Embora, às vezes seja desconfortável, é esse o caminho. As perguntas da noite foram muito sábias e oportunas. Um dos participantes pediu o resumo do conceito de ética em uma frase.
Jaci respondeu ser “toda reflexão crítico-criativa em busca da vivência da justiça, como já dizia Aristóteles, sem dever nada às relações de amor e de misericórdia”.



* Orientação e revisão: Jaci Rocha Gonçalves, Dr.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Espiritualidades no Timing da Vida: Deusas Olímpicas, Maria e as Marias

Jaci Rocha Gonçalves*

Fato relevante de maio de 2016: a tocha olímpica. Pode ser visto como um rito de espiritualidade. Saiu de Olímpia, a cidade de deuses e deusas gregas em 27 de Abril. A tocha atualiza o mito de Prometeu quando rouba o fogo de Zeus para apoiar os humanos. O fogo olímpico foi levado por Ibrahim Al-Hussein, 27 anos, eletricista e garçom, em sua cadeira de rodas, no campo de refugiados sírios de Eleonar, periferia de Atenas. Depois, continuando o espírito olímpico, foi levada pelo refugiado afegão que tem o filho bebê no colo e uma súplica na aba do boné: “Open the bordes” – Abram as fronteiras! Os refugiados ocupam a vila olímpica, que ficou no abandono após as olimpíadas de 2004.

A tocha já percorre o Brasil desde 3 de maio, mês de ternura das mães e, na tradição cristã, a memória de Maria, mãe de Jesus. Aquela que fala de paz em português, em Fátima, animando crianças em pânico de guerra. Daí o 13 de maio, de Nossa Senhora de Fátima. Não é à toa que a tradição cristã (mas também judaica, muçulmana, chinesa e guarani) têm um xodó todo especial pela mãe de Cristo. É a única mulher com direito a um templo para reflexão entre os muçulmanos.

Em nossa realidade carente de cuidados com a vida dos mais frágeis, é consoladora a notícia dada esses dias pelo IBGE de que o nome mais comum entre as mulheres brasileiras é Maria, com 11,7 milhões de pessoas; e o segundo é Ana, nome da vó de Jesus, com 3,8 milhões. Por que a preferência?

Talvez porque, diferente das deusas do Olimpo, às Marias interessa alguém semelhante a elas, misturada no cotidiano exigente, sem perder a graça. Bem parecidas com o significado mais comum de Maria, entre cem, no original hebraico Miriam: aquela que enfrenta o mar quando o mar está brabo. Bem do jeito de Maria, de nossas mães e dos surfistas.

A garra dessas guerreiras inspiradas em Maria eu conheço muito bem pela vivência nas comunidades em quase 50 anos. Elas fazem permanente a decisiva política biocrática. São jovens aprendizes universitárias, são mães e operárias, avós e incansáveis, interferindo na participação política cotidiana, do Planalto, com a primeira presidenta da nossa história exercitando a governança até a fronteira mais distante.

Aí a tocha da olimpíada da vida não se apaga. Essas Marias que seguem a atleta da Galiléia que, grávida, enfrentou caminhos difíceis para cuidar da velha prima Isabel. Repetem na própria pele aquele jeito decidido da mulher que, de pé, estava de plantão no drama da cruz. Então, vamu q vamu cantando: “Maria, Maria é um dom, uma certa Maria, uma força que nos alerta!”

*Padre Casado, Doutor em Teologia, Filósofo, estudou
Comunicação no vaticano e é Professor da Unisul.

Publicado originalmente no 
Jornal Cotidiano Pedra Branca


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Feliz coincidência: eram tod@s da UNISUL

A necessidade do diploma em jornalismo no Brasil é uma formalidade ignorada, os estudantes buscam o aprendizado da academia, mas tem livre poder para exercer o papel de jornalista, seja online ou offline.
Na Unisul, a cada semestre, mais alunos vêm em busca da formação e, como sempre, uns descobrem que é isso mesmo que desejam fazer e outros vão exercê-lo de forma “autônoma”, sem o diploma mesmo.
Em uma entrevista recente no SBT/SC, o professor da Unisul e teólogo Jaci Rocha Gonçalves, encontrou alguns de seus ex-alunos e registrou o momento em sua coluna no Jornal Cotidiano, publicado na região da Pedra Branca, Palhoça-SC.

Pedro Kuhnen, Alexandre Beck, Jaci Rocha Gonçalves,
Evelyn Yara dos Santos e Fernando Evangelista
Ao final do programa, festejamos cinco coincidências com a Unisul Pedra Branca: Marja Nunes, a apresentadora, Alexandre Beck, escritor de Armandinho 7, Pedro Kuhnen, o repórter; Evelyn Yara dos Santos, na mesa de produção e o sociólogo e mestre em jornalismo Fernando Evangelista, assessor de imprensa da Barca dos Livros Biblioteca. Tod@s estudaram conosco na Unisul.
Senti neles, mais uma vez, a força das sementes e que a verdade do viver é como uma olimpíada difícil, por isso mesmo, fascinante. É como escreve o servo de Deus Hélder Câmara quando diz que o ‘deserto é fértil!’ ”.
Na entrevista pós-encontro, os egressos da Unisul, comentaram sobre o reencontro e sobre o tempo de acadêmicos.
Alexandre Beck:
1) Pra você como foi o reencontro com outros colegas da Unisul?
Sempre é muito bom. Como reabrir armários repletos de boas recordações.
2) Sente saudades do tempo de acadêmico de jornalismo?
Há uma espécie de nostalgia, sem dúvida. Mas ao mesmo tempo existe a clara percepção de que este período – por mais importante que tenha sido (e o foi) - faz parte do passado. Sem saudades, portanto. Ter estudado Comunicação Social - e participado ativamente das atividades estudantis - me deu a base pra um processo de aprendizado que segue em andamento. E espero que nunca tenha fim.

Marja Nunes:
1) Reencontrar colegas sempre é bom porque traz lembranças de um tempo que não voltará mais, de aprendizado, de explorar o ambiente acadêmico, de conhecer gente diferente. De aprender lições que carregarei pra vida toda.
2) Sinto muita saudade do tempo de acadêmica de Jornalismo, de aprender coisas novas todos os dias, de poder sugar informação, de debater com os colegas os temas mais variados. Hoje sinto falta dessa troca de ideias, principalmente pelas novidades nas plataformas de comunicação. Mas pretendo voltar para a universidade para fazer um mestrado.

Pedro Kuhnen:
1) O reencontro foi incrível. Estar junto com alunos de várias fases do curso e identificar neles características tão parecidas com as da minha formação foi muito bacana. Minha formatura foi em 2009, mas os professores que tive continuam servindo como norte nas questões éticas e políticas do dia a dia. Hoje mantemos contato pela internet. Encontrar o Jaci, pessoalmente, foi muito bom. Deu pra ver que ele não mudou seus princípios. Sinto orgulho de ter tido Jaci como professor.
2) É sinto saudades sim. Poder estudar é um privilégio. A gente só dá o real valor quando fica mais velho e entra no mundo profissional. Ter alguém guiando os nossos passos, um professor, é maravilhoso.
Alexandre Beck, Marja Nunes, Jaci Rocha Gonçalves e Fernando Evangelista

Leonardo Santos
Estagiário do Revitalizando Culturas

Jaci Rocha Gonçalves
Supervisor do Revitalizando Culturas