segunda-feira, 18 de julho de 2016

Espiritualidade no timing da vida, 41 anos de padre: duas declarações e uma prece.

Jaci Rocha Gonçalves*

Car@ leitor@. Neste julho, agradeci no facebook  meus 41 anos de sacerdócio. Choveu recordações, nessa milagrosa praça virtual. Poderia rolar aqui muitas crônicas virtuosas a partir das declarações recebidas na fanpage. Selecionei duas para dar o tom desta meditação sobre o timing político que estamos vivenciando na reta de chegada das Olimpíadas.

A primeira é de um padre orionita, de Moçambique, na África. Foi um fiel voluntário jovem na fundação da Orionópolis Catarinense. Sua família vivia aos pés da Pedra Branca. Escreve: “E todos seremos iguais, o dia é a gente quem faz, quem planta a justiça refaz, a estrada da vida e da paz." É o refrão da música que recebi também de presente há mais de 40 anos. Um mantra que nutria nossa decisão de construir relações de justiça sem nada dever à leveza da alegria, mesmo naqueles tempos pesados da ditadura. E assustadores, como os que vivemos hoje.

Quando o conheci, falávamos que São Luís Orione, nos anos 20 do século passado, lutou pelo retorno dos negros como evangelizadores às terras de seus ancestrais  africanos. Sonho concretizado por missionárias orionitas desde 1979. Aqui na Unisul, vemos crescer ações para continuar e ampliar o apoio na formação de africanos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e de outras áreas.
Jaci com irmãos Glória e José na festa de ordenação de padre em 7.07.1971, na Orionópolis Paulista.

A segunda veio da Itália, de um jovem dos anos 80, que rediz o lema de nossos encontros em Roma: “al servizio del mondo!”.  Dizíamos que desta opção de viver por horizontes inclusivos não se excluía ninguém, nenhuma ideologia, religião ou qualquer poder: fosse político, econômico, jurídico ou estético.  Nem mesmo as invenções tecnológicas como se cantava esses versos da mesma música: “Vem, vamos interrogar algum computador/ o que fazer prá ver reinar o amor/ e como desarmar o coração e a razão/ de homens violentos que não vêem atrás/ o que a guerra fez e faz.”

A prece veio no dia seguinte do aniversário, na sala do Revitalizando Culturas. Na fala sobre a desculpa do ministro da justiça de que não daria a presidência da FUNAI a um indígena para não ofender outra etnia. Está perdendo a chance histórica de abraçar a sábia e milenar tradição destes povos de manter a organização confederada  pela língua comum e um respeito religioso pelo rodízio de governança. Atento, um sociólogo e jornalista africano de Guiné Bissau acompanhava a conversa.

Listamos nas confederações tupi-guarani, a língua Nheenkatu; na mayo-asteca, a Nahualt – falada por NS de Guadalupe - e a Andina, a Quéchua. O mesmo ocorreu entre os originários da África. Eles dizem que suas guerras intermináveis acontecem porque os europeus quebravam esse sistema religioso de rodízio que acarretava em castigo e ofensa imperdoável. O africano interrompeu a conversa pra dizer. Eu sinto que vocês estão falando como se conhecesse a história dos povos de Guiné Bissau.

Interajo há mais de 29 anos com os povos originários de Santa Catarina e o que tenho visto é que em sua organização toda autoridade emana da comunidade reunida em oração. A cada aldeia se garante autonomia de autoridade local. Daí, a prece: Para que deixemos de lado nossas imposições sobre eles, como fruto das Olimpíadas, rezemos!  

*Padre Casado, Doutor em Teologia, Filósofo, estudou
Comunicação no Vaticano e é Professor da Unisul

Publicado Originalmente em 18/07/2016
Jornal Cotidiano Pedra Branca.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

[Atualizado] Perda de identidade: A criança indígena confinada no abrigo

Na tarde da última quarta feira (06-07), o professor da Unisul e teólogo culturalista Jaci Rocha Gonçalves concedeu uma entrevista à jornalista Camila Yano, para o programa Justiça Legal, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, veiculado na TV Justiça. Com o tema “adoção de crianças indígenas”, a escolha está mais que justificada, dado todo o trabalho da Unisul e do centro de pesquisa Revitalizando Culturas, do qual Jaci é coordenador.

O assunto específico do tema foi sobre a decisão do desembargador substituto Rodolfo Tridapalli, da Câmara Cível Especial do Tribunal de Justiça que determinou que a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) tomasse as devidas providências para reaproximação e adaptação de uma criança de etnia Guarani-mbya, com membros da própria família extensa da comunidade indígena. Essa decisão revoga a situação da criança indígena que há mais de um ano encontra-se num abrigo na lista de espera para adoção por um casal Juruá (não-índio).

Sentado em um dos bancos do campus Unisul Pedra Branca, Jaci comentou sobre as dificuldades históricas crônicas na mudança de tratamento com os povos originários por parte dos poderes constituídos.

No caso do tratamento da criança, o representante do poder judiciário não havia escutado  a autoridade indígena e nem mesmo a FUNAI. Jaci valorizou a nova atitude do desembargador substituto como justa com a Constituição brasileira atual nos artigos 230 e 231 e a Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas de 2007. O professor Jaci reconheceu nessa atitude, um ato que se inscreve na política de reparação às leis eurocêntricas impostas no Brasil desde 1755 sobre as culturas ameríndias.

E, sobretudo, quando se trata de proteger as crianças numa cultura como a guarani que vê a criança como mensageira do divino para os humanos e protetora de seu povo.

Abaixo o vídeo com o programa completo, no qual foi exibida a entrevista.
Da esquerda para direita: Rodrigo , Camila Yano e Jaci Rocha Gonçalves.




Leonardo Santos, 
estagiário de Jornalismo no Revitalizando Culturas
Coordenação: Prof Dr. Jaci Rocha Gonçalves