quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Espiritualidades no Timing do Cotidiano

Paz criativa versus falsidade

Jaci Rocha Gonçalves *

Mauri Heerdt,
Foto: Luisy Albuquerque
Car@ amig@ leitor/a. Felizmente, a utopia factível da paz ganhou alguns espaços nas agendas políticas programáticas próprias dos janeiros.  De Davos ao discurso do novo reitor da Unisul, nosso  colega filósofo Mauri Heerdt. Em ambos, a paz é conceituada biocraticamente como o nome dado a toda a práxis na qual se busca o desenvolvimento da vida para todos e tudo.

Heerdt assentou seu discurso no dueto raízes e asas: na força inspiradora das raízes e na saúde transformadora das asas. Após breve mergulho nas raízes de sua família representada pelo velho pai de 85 anos e na gratidão e afeto aos professores de seu percurso nas  raízes escolares, responsabilizou alguns jovens organizados em protesto com  abaixo-assinado, pelo seu ingresso e vôo no espaço da gestão universitária. E disse: “é missão essencial da universidade educar para a transformação de pessoas e de ambiente.”

Em Davos, no Fórum Econômico mundial, o foco dos discursos entre os grandes executivos e gestores mundiais foi o enfrentamento dos números necrocráticos filhos das desigualdades  estruturais que desafiam suas governanças.  Vale a pena ler o relatório da OXFAM como fonte de meditação neste tempo de veraneio e de férias. Sugiro como facilitador de leitura a clipagem jornalística oferecida diariamente pelo IHU da Unisinos. Um número da desigualdade é o de oito pessoas, empresários, todos do sexo masculino que acumulam a mesma riqueza que a metade mais pobre da população mundial, ou seja, 3,6 bilhões de pessoas. No Brasil, o fenômeno se repete com oito empresários da comunicação e vendas de bebidas.

E o que tem a ver essas preocupações programáticas de janeiro com  a paz e as espiritualidades? Tudo. Porque as espiritualidades existem como espaços privilegiados para a construção de sentidos para nós, todos os humanos, e para o ecossistema. De fato, os espaços de espiritualidades são criados pelas religiões, pelas artes e pelas Ars Artium,  primeiro nome dado aos espaços universitários.

E eles correm o risco de se tornarem reféns de zonas de conforto criando rituais desligados das realidades concretas onde se inserem. A esse propósito vale o  alerta recente de papa Francisco aos católicos de que “a Igreja  não é estacionamento,  mas espaço de compromisso na luta pela paz. Desde o nível local e diário até ao nível da ordem mundial, possa a não-violência criativa tornar-se o estilo característico das nossas decisões, dos nossos relacionamentos, das nossas ações, da política em todas as suas formas”.
Aqui em Palhoça e em cada cidade, as transformações de paz podem se dar pela nossa participação virtuosa em espaços de decisões políticas: família, associações, igrejas, escolas, grupos de jovens, de idosos etc. Numa de minhas paróquias, esses grupos se revezavam na freqüência semanal à Câmara de Vereadores, no século passado. 

Que tal agora com a facilitação virtual? São formas de cultivar a paz sem falsidade.

Vamu que vamu, querid@s.       


*Padre Casado, Doutor em Teologia, Filósofo,
estudou Comunicação no Vaticano e é Professor da Unisul.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Espiritualidade no timing do cotidiano

Paz em 2017. 2+01+7= ?

Jaci Rocha Gonçalves *

Car@ amig@ leitor/a. A utopia factível da paz tem sido tema dos janeiros.  A dica a todas as espiritualidades veio do Papa Paulo VI em 1º de janeiro de 1967. Três meses depois, em março, na famosa carta encíclica sobre o Progresso dos Povos (Populorum Progressio) o sábio papa Montini explicou que entendia a paz como o desenvolvimento da vida para todos. Neste janeiro de um ano que soma dez, alguns de nossos velhos sábios, teimosos cultivadores da paz com este significado, nos deram “até logo!”

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Zygmunt Baumann (1925-2017)

Faz três horas, enquanto partilho essa crônica, recebi esse inbox no face: pai, Zygmunt Baumann se foi. Em seguida, um post de um amigo mineiro lembrou que em entrevista no Observatório da Imprensa, em 2015, o filósofo polonês  se mostrou surpreso com os avanços sociais brasileiros por uma paz concreta bem conforme ao conceito de Montini que lembrei acima: “representantes de 66 governos do mundo vieram para o Rio de Janeiro para se consultarem, para aprenderem sobre a experiência de retirar 22 milhões de pessoas da pobreza. Ninguém mais repetiu esse milagre, apenas o Brasil até agora", disse Baumann.


Há várias outras fontes de espiritualidade que confirmam  a necessidade urgente de viver este foco da ciência da paz, ou seja, como criação de oportunidades iguais para o desenvolvimento de todas as vidas no planeta de forma não-violenta ativa e criativa. Um dia desse janeiro na livraria, enquanto minha filha de nove anos procurava o clássico Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon, me vi folheando um diálogo entre Daniel Goleman, o guru de inteligência emocional e o Dalai Lama, papa do Budismo Tibetano. Após exílio de 50 anos, o sorridente Lama insistia que a maior ameaça à paz é esse sistema  intrinsecamente anti-ético de gerir a economia para o lucro de pouquíssimos. 

O papa Francisco na mensagem sobre a paz para 2017 lembra o Mahatma Ghandi, apóstolo maior da não-violência, Khan Abdul Ghaffar Khan, muçulmano paquistanês que defendeu a escolha não-violenta de Gandhi, e Martin Luther King. Entre as mulheres, Francisco lembra a terapeuta e prêmio Nobel “Leymah Gbowee e milhares de liberianas, que organizaram encontros de oração e protesto não-violento (Pray-ins) conseguindo negociações de alto nível para o fim da segunda guerra civil na Libéria”.

Aqui pertinho demos “até logo”  ao mucisista e teólogo padre Ney Brasil, o amigo dos detentos, e ao professor e prefeito Sérgio Grando, que soava um sininho ao subir os morros chamando o povo para o plano participativo nos anos 80. Ambos tinham em comum a dica do papa Francisco: o cultivo da “não-violência ativa e criativa como estilo de vida e um estilo de fazer política”.

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Neste 2017, completam-se 50 janeiros deste santo aprendizado de irenelogia (ciência da paz) como inclusão da qualidade de vida para todos e tudo. Somos milhares nessa procissão de maioria anônima   comprometida a “cultivar comunidades não-violentas, que cuidem da casa comum”. Vamu q vamu! 2017 repropõe velhos desafios à irenelogia. 


*Padre Casado, Doutor em Teologia, Filósofo,
estudou Comunicação no Vaticano e é Professor da Unisul.