segunda-feira, 27 de março de 2017

Espiritualidade no timing do cotidiano

BIOMAS E INDÍGENAS: ESPIRITUALIDADE SUJEITO-SUJEITO


Jaci Rocha Gonçalves*

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Car@ Leitor/a. A lembrança dos povos originários na Campanha da Fraternidade 2017 sobre Biomas Brasileiros e Defesa da vida foi uma opção sábia e necessária. Sábia porque é mais um abraço de reparação a  quase hum milhão de indígenas brasileiros de 305 etnias e 274 idiomas em extinção. É necessária porque todos esses povos, de certa forma, são protetores dos biomas e protegidos pelos biomas. Em SC restam os  Kaingang (região oeste), Laklaño/Xokleng (Alto Vale do Itajaí) e Guarani (Litoral) e convivendo nas terras dos outros dois povos.

Tenho aprendido desde 1991,  especialmente com os guarani, eu e os alunos da Unisul e muitos outros visitantes das aldeias, a ter uma relação de sujeito-sujeito, relação filial com a Mãe Terra, com os biomas e não mais de sujeito-objeto. Relação amorosa, holística, de espiritualidade. Lembro que certa vez levei uma aluna bióloga à aldeia Ka’akupé do Maciambu de Palhoça que pretendia estudar a ornitologia guarani.

O velho xamã, após ouvi-la por longo tempo, lhe disse: aqui não é possível estudares os pássaros sem perceber a relação com todos os outros seres. A não ser que mudes de ideia, não poderás estudar conosco. Ela mudou de ideia. Hoje é doutora e trabalha com quatro povos originários amazônicos.

Duas heranças residuais  mostram qual a relação desses povos com os biomas de nosso ecossistema: a primeira são os nomes com que chamamos nossas montanhas (Cambirela), rios (maruim, maciambu), pássaros (anu), peixes (cará), animais (tatu), árvores (guarapuvu), plantas medicinais, tubérculos e frutas (aipim, tucum, gabiroba).

Outra é a herança cultural: os nomes que damos a nossos povoados – Biguaçu, Palhoça, Garopaba, Aririú, etc, a nossas comidas: mandioca, beiju, pirão, etc. É comum entre todos os povos originários essa relação de afeto filial com a natureza terrenal e sideral como parente, como família.  Mexeu com o bioma, mexeu com a Mãe Terra, a mãe do indígena. Nas oito aldeias guarani da Grande Florianópolis há uma mostra de sua  resistência surpreendente e nos últimos 25 anos de forma cada vez mais visibilizada. Parece haver uma reciprocidade de amor: o indígena cuida de sua mãe e ela, no caso nosso, a Mata Atlântica foi sua salvação.

No colo da Mata Atlântica, eles se refugiaram em três grandes perseguições: em 1580 – diáspora guarani no Vale do Maciambu. Em 1750, com a destruição dos Sete Povos das Missões – as montanhas, grutas e cavernas os receberam; 1910 com as políticas de integração – eles passam novamente a ser caçados como bugres ou se embranquecem obrigados a perder sua identidade. Também aqui, foi no interior da floresta que mantiveram sua resistência, segredos de saberes e fazeres culturais.
Foto: Henrique Almeida
Felizmente, agora, já podemos aprender com os próprios indígenas. Inteligentes e sábios, os três povos restantes de Santa Catarina tiveram as primeiras formaturas de universitários em 2015, na UFSC. Cada vez mais falam por si mesmos em Português. Na UNISUL, apoiamos suas produções de livros, CDs, DVDs em versão bilíngüe. Assim podemos aprender sua língua, ritos religiosos, sistemas de educação, medicina tradicional, arquitetura, astronomia, geografia, organizações políticas e econômicas, e sobretudo, como nos relacionar amorosamente com os biomas respeitando sua biodiversidade.

Neste março/abril, vamu q vamu espiritualizando e refazendo vidas.

*Padre Casado, Doutor em Teologia e Culturas, Filósofo
Professor da Unisul e Coordenador do Programa Unisul/Revitalizando Culturas

terça-feira, 21 de março de 2017

Descartando a ordem de descarte

Na manhã da quinta feira, 16 de março, a equipe do Revitalizando Culturas reuniram-se com alguns membros da aldeia Mbyá Guarani e o cacique Luiz Mariano para o acolhimento de doações nas antigas instalações da UnisulVirtual, no Centro Comercial Pedra Branca. Materiais de escritório declarados para descarte foram recolhidos para melhorar as instalações educacionais da Escola Itaty: cadeiras, mesas, gaveteiras, armários e quadros de avisos, com pequenos reparos, darão conforto para alunos e qualidade para as exposições e armazenamento de material didático.

Para o transporte do material, o amigo Henrique, popularmente conhecido como Macarrão, bateirista da Banda Nós Naldeia, trouxe seu caminhão com duas caçambas que foram preenchidas ao máximo com os materiais e por volta das 12h iniciou o descarregamento lá na aldeia Mbyá Guarani.

E os trabalhos não param. Em Abril ocorrerá a 12ª Semana Cultural Indígena na Aldeia Mbyá Guarani.



Leonardo Santos

(Estagiário Revitalizando Culturas)
Orientação: Professor Dr. Jaci Rocha Gonçalves

quarta-feira, 8 de março de 2017

Coral Mbyá-Guarani se apresenta na Inauguração do Fórum Trabalhista de São José – SC


No dia 6 de março de 2017, às 17h foi inaugurado o novo Fórum Trabalhista de São José, na Praia Comprida. Com trajes sociais, vários membros do Direito da região se fizeram presentes na cerimônia, incluindo o vice-prefeito do município de São José, Neri Osvaldo do Amaral.

Há algumas semanas, a Dra. Maria Beatriz Gubert em um post no facebook pedia algum coral infantil para a cerimônia quando a voluntária do Revitalizando Culturas, Myriam Righetto leu este post durante uma reunião com Jaci Rocha Gonçalves e então surgiu a ideia de levar o coral Mbyá-guarani. Com algumas conversas com ambas as partes e se confirmou a presença no evento.

De volta ao dia da inauguração, via Van, os cantores foram transportados da aldeia do Morro dos Cavalos para o local, chegando lá por volta das 16h. Fizeram um lanche e começaram seus ensaios.

Vários foram os olhares curiosos dos convidados no ensaio. Faziam comentários uns com os outros, gravavam vídeos com o celular e enviavam pelo Whatsapp, sorriam com o encontro com a riqueza do diferente e igual, mas que a sociedade acaba colocando como desigual, inferior e exótico.


Às 17h anunciaram as autoridades devidas e então o coral. Com a coordenação de Wanderley Karaí, cantaram e dançaram três de seus mantras em sua língua guarani  quase exterminada. Estavam com pintura e  vestiam trajes típicos e a camiseta com o slogan do 2º Congresso Internacional Revitalizando Culturas: Direitos Indígenas: Direitos Humanos?  

Os juruás, não índios, aplaudiram e se encantaram: esperamos que não momentaneamente, mas sim por toda a vida.

O albúm completo do evento você confere aqui.


Leonardo Santos

(Estagiário Revitalizando Culturas)
Orientação: Professor Dr. Jaci Rocha Gonçalves

Férias e Descanso, mas em trabalho constante

A equipe do Revitalizando Culturas voltou aos trabalhos oficialmente no dia 6 de março de 2017. Antes disso, com voluntariado de membros da equipe e do coordenador Jaci Rocha Gonçalves, foram feitos alguns trabalhos nas férias de janeiro.

Na comunidade dos Mbyá-Guarani do Morro dos Cavalos, o Centro Cultural Tataendy Rupá possuía poucas cadeiras, causando um pouco de desconforto nos eventos em que os sábios guaranis compartilhavam seus conhecimentos entre si e com os não índios.

Enquanto isso ,a Unisul se desfazia de algumas cadeiras e mesas vistas como inutilizáveis para os acadêmicos universitários. Com conversas com as partes responsáveis, ficou decidido: as cadeiras que estavam, sim, um pouco danificadas foram levadas para os guaranis.

Era um sábado de setembro de 2016 pela manhã, quando Jaci e alguns voluntários carregaram as cadeiras para um caminhão e levaram para o Centro Cultural Tataendy Rupá, na descida para o Vale do Massiambu no morro dos cavalos. As cadeiras já foram utilizadas no dia 13, terceiro dia do 1º Congresso Internacional Revitalizando Culturas.

Em janeiro de 2017, Arthur, Maycon e a gerência da Unisul encaminharam a renovação do estofamento das cadeiras. Com esse conforto a mais, a primeira utilização das cadeiras foi na reunião dos professores indígenas para definição do plano de ensino para 2017. Que seja um ano de mais mudanças favoráveis para o crescimento das condições de vida e lutas de nossos irmãos indígenas.
Reuniões entre o Revitalizando Culturas e os Mbyá foram constantes no período de férias. Na pauta, a organização da 12ª Semana Cultural na Aldeia Itaty e a segunda tratativa para o 2º Congresso Internacional Revitalizando Culturas em setembro de 2017, no 10º Aniversário da Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas.

Em meio a uma dessas reuniões surge um pedido de coral e com mediação da voluntária Myriam Righetto, o coral Mbyá Guarani é levado para a Inauguração do Fórum Trabalhista de São José.


Leonardo Santos

(Estagiário Revitalizando Culturas)
Orientação: Professor Dr. Jaci Rocha Gonçalves

Espiritualidade no timing do cotidiano

Mulheres na contramão do descuido

                                                                                                                                               Jaci Rocha Gonçalves *

Car@ amig@ leitor/a. Espiritualidade feminina tem sido sinônimo de biocracia, ou seja, alguém que instintivamente se deixa governar pelo valor inalienável da vida. Nas quebradas de fevereiro e março deste 2017 (=10) o feminino vem perturbar todo esquema de violência à vida. Seja nas expressões de vidas humanas, terrenais ou siderais.

Essa determinação da mulher que parece genético-instintiva com o cuidado da vida está sendo estudada por um aluno de Publicidade e Propaganda da Unisul. Preocupado, escolheu pesquisar o como e o porquê sua mãe de 45 anos, mulheres mais novas e da dita melhor idade  celebram o internacional Dia da Mulher em 8 de março. E como está a representação desse Dia da Mulher na propaganda brasileira.

129 mulheres, Nova York, 1857
Meu aluno está impactado como a festa e o mercado sofrem de amnésia, a doença do esquecimento, da perda de memória do fato celebrado. Neste caso, a lembrança do dia de 1857 em que cerca de 129 mulheres morreram trancadas e sufocadas pelo incêndio provocado em fábricas de Nova York nos EUA. Era uma trágica represália à greve das trabalhadoras. Exigiam jornada diária de 8 horas de trabalho ao invés de 16h/dia e direito a voto.

Em nosso contexto de crise da democracia, temos a presença inédita em nossa história do feminino cuidadoso ocupando mais da metade das vagas em nossas universidades, sobretudo nas atividades de educação e saúde. E logo, logo, vamos vê-las com a caneta na mão definindo nossas políticas. Nesse dia, será um concreto contexto de esperança para nossa espiritualidade biocrática.
Não posso esquecer de listar as mulheres teólogas católicas, muçulmanas e anglicanas que discutem sem medo esse lado  biocrático do cuidado com a vida, inerentes aos livros sagrados de revelação das grandes religiões judaico-cristãs e islâmicas.

E a festa dos 300 anos da padroeira Nossa Senhora Aparecida que está fazendo cair nossa ficha: sua presença negra rebelde pescada no rio Paraíba antecipou por 171 anos o grito pela libertação dos escravos. Fato que mereceu memória até no desfile de carnaval de 2017: mais parecia procissão em forma de samba dançado pela Escola de Samba paulistana da Vila Maria.


Nessa mesma vibe, partilho ainda com você a graça da entrevista para o Programa de TV Educação e Cidadaniade Maria Odete Olsen.  Foi na paróquia de Capoeiras com cenas no prédio que substituiu a velha casa da Orionópolis na DibCherém, 492. Faz 30 anos do trabalho biocrático do Projeto Turminha, hoje, CEDO(Centro Educacional Dom Orione) com crianças carentes . Na parede de uma sala cheia de máquinas de costura vi a foto de Salete, esposa de um amigo empresário. Foi quem reuniu as primeiras de centenas de voluntárias. São mais de 4 mil vidas com cidadania protegida por educadores corajosos. O câmera vibrava lembrando o movimento de que participou quando menino. Uma menina dizia que sua mãe também foi educada ali.

Sempre na mesma contramão do descuido, vibrei ainda com o convite da jornalista da Arquidiocese de Florianópolis, egressa da UNISUL, para outra  entrevista inédita: quais possíveis lições biocráticas de amor aos biomas,  as tradições indígenas poderiam nos indicar para a Campanha da Fraternidade 2017. Sugeri, então, que ela entrevistasse uma recém graduada guarani, mãe de três filhos e vovó, permitindo que os indígenas falassem por si mesmos. Você precisa conferir o resultado.

Vamu que vamu nesse cordão feminino da esperança: biocrático, ridente e transformador.

*Padre Casado, Doutor em Teologia, Filósofo,
estudou Comunicação no Vaticano e é Professor da Unisul.

terça-feira, 7 de março de 2017

[Educação e Cidadania] Professor Jaci fala sobre o Centro Educacional Dom Orione

Aos 4:06 do vídeo abaixo, você confere o professor Dr. Jaci Rocha Gonçalves em uma de suas visitas a um de seus projetos do passado. É o Centro Educacional Dom Orione, em Capoeiras. Jaci acompanhou toda a história, que começou há 30 anos e inclusive foi coordenador da instituição.